Solitaire.

“Mãe, mãe! Eu canto bem? Taís quer entrar no coral da escola e eu-”

“Não sei”.

Sua mãe resmungou, franzindo-lhe o cenho e passando apressada para seu escritório. Naquele momento, Emília soube que sua voz jamais havia sido ouvida.

Emília não entrou no coral. Entrou no teatro. O palco era o único lugar onde a luz a alcançava.

Tem ideia do quão humilhante é ser o maior alvo do seu próprio desprezo?

Emília aprendeu a performar sentimentos porque ela não tinha nenhum. Há dois meses, Renata sentava sozinha no almoço. Alguns calouros haviam descoberto que ela participava de um grupo de estudos ufológicos. “Renata acha que é um E.T.!” e riam. Emília não achava que era um alienígena. Ela não era nada vivo.

Emília era às vezes Emília, e às vezes, Millie. Emília vivia num mundo pouco convidativo e denso em demasia, raramente falava. Emília era cínica e nunca ligava de volta no dia seguinte — era fora de cogitação dar seu número certo. Millie usava vestidos florais, gostava de cozinhar, e no mínimo, reconhecia a importância de sentimentos para a espécie humana. Taís preferia Millie. Lucas tentava a todo tempo desafogar Millie da imensidão de Emília. Renata tinha medo de Emília e adorava o cabelo de Millie. De certo modo, era Millie quem salvava Emíla do completo isolamento.

Emília — ou Millie, ou as duas, ninguém jamais sabia — tinha várias paixões e ciúmes a cada mês. Ela se desesperava apenas frivolamente, ciente da superficialidade de tudo, da limitação de suas capacidades sensitivas. Por vezes, ela acalentava um fio de tristeza genuína, que logo em seguida se perdia na liquidez das sensações e na pressa da hipocrisia.

Emília nunca conseguia tornar suas paixões palpáveis, por isso ela sempre ia embora na metade da música.

Marina era mais uma de suas incertezas. Emília tinha surtos de ciúme constantes causados pelo excesso de beleza e caráter galanteador da moça. Bastava Lucas destinar um de seus sorrisos radiantes à pálida Marina que Emília passava dois dias sem conseguir falar direito com o melhor amigo.

E Marina preferia Emília a Millie.

“O que tem essa Marina, hein?”

Taís questionava, com sua sobrancelha curiosa levanta.

“Nada”, ela respondia inexplicavelmente mal humorada, quando as dois haviam acabado de ter uma conversa agradável.

Já era meia hora de atraso quando ela resolveu ir à cinemateca. Era a encarregada do mês de arquivar os novos filmes por gênero, ano, país e diretor. Tempo precioso que seria cobrado pela sra. Selma, tempo gasto em decidir se seu amor pela sétima arte era maior que sua determinação a evitar o motivo de suas três últimas crises existenciais.

Sentou-se ao lado de Marina. Com a mão esquerda, tentava providenciar uma válvula de escape para sua ansiedade. Com a mão direita, tentava se livrar do resto de seu coração. Não o olhou nem o cumprimentou. Marina sorriu, aquele sorriso desfigurado e inconvenientemente sapiente.

Marina se divertia com o fato de que ninguém percebia que 2/3 de suas palavras não eram forjadas com interesse, mas com sagacidade.

“Eu estava imaginando como você consegue passar quatro horas por semana sem olhar pra mim uma única vez”.

Zombaria causa falsa simpatia — imperícia soa como confusão.

“Seu cabelo não é tão diferente do da Medusa”.

“Eu Não Preciso De Nada”, 1968, França, Georges Louvain.

Eu não preciso — de nada. Nem do quente urso Ted de um braço só, nem de sorriso paterno, nem de conforto, nem de amizade, nem de abrigo contra a absurda realidade fulgurante, nem de braços firmes despidos de luxúria, nem da incerteza provavelmente dolorosa esculpida em 1, 78m de Marina, Marina, Marina.

“Quando as pessoas te olham você olha de volta, e sabe, você não deveria fazer isso, não é educado” pare de perfurar meus olhos com uma franqueza insuportável “é realmente uma mania horrenda”.

Marina encarou o resmungo, sem tomar posições, sem escolher armas — Emília já havia disparado as suas contra si mesma. Cada vez, a carranca emoldurada pelos cabelos negros ficava mais dura. Os momentos de provocação ficavam mais raros, os sarcasmos eram menos entendidos e os silêncios eram mais maçantes. A conexão se esfarelava sem cor, com aspecto amorfo.

Acordes de autoria de Jack White irromperam indevidamente, quase fazendo ritmo com a consequente retaliação da sra. Selma.

“Desculpe”, Marina começou a se desculpar, com uma polidez aprendida à força. “É minha namorada. O pai dela está no hospital, eu preciso ir”.

Emília tinha muita facilidade de se livrar das coisas que lhe faziam bem.

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