Cinzas.

Inês tinha um plano.

“Eu vou trabalhar próximo ano, daí, juntando com o dinheiro que meu pai vai me dar, posso finalmente estudar na Itália. Você não sabe como as coisas lá são mais fáceis pra gente como eu. Eu vou sentir sua falta”. Nisso, ela encosta sua cabeça em meu ombro e me dá um abraço. Eu me encolho, e tento me controlar para não me contorcer. De uns tempos para cá, essa era a minha resposta a qualquer contato físico. Mesmo que fosse da minha melhor amiga. Mesmo que fosse uma das pessoas que eu mais gostava no mundo. E isso não me surpreendia mais. Era só uma constatação, sem nenhum juízo de valor.

“E você? Qual o seu plano?”

Meu plano? Eu não tinha um. Quando você é como eu sou, não existem mais planos. Não existe mais futuro, não existem mais cenas da sua futura casa, seu futuro marido, filhos ou trabalho. Nada vem à sua cabeça. É como aquele jogo infantil de amarelinha, só que o último quadrado representa uma data específica nos próximos quatro meses.

Ah, é. Eu tinha um plano. Um único plano, que impossibilitava a existência de qualquer outro plano. Mas acho que é melhor Inês não ficar sabendo dele.

Ela já estava suficientemente acostumada comigo para não estranhar ter meu silêncio como resposta à sua pergunta. No carro em que estávamos, a temperatura era razoável, mas lá fora, fazia um frio cortante. A neve se acumulava na beira das calçadas e as ruas estavam quase totalmente vazias. No dia anterior, eu havia recebido a carta de aprovação para uma boa Universidade, e dormira na casa de Inês. A carta que faria qualquer um pular de alegria não causou nenhuma emoção em mim. Eu sorri só para não parecer estranha. Pra não deixar tão óbvio que havia algo de errado comigo. A carta, em nenhum momento, ameaçou meu único plano inabalável.

“No que você está pensando?” a voz de Inês surge outra vez, colorindo meus pensamentos.

“Nada. É que eu gosto da cidade quando neva.”

Quando você é como eu, seu maior passatempo é observar os prédios da cidade. Quanto mais alto, mais deslumbrante e interessante. Eu não era nenhuma amante da arquitetura. Eu olhava cada prédio imaginando como seria pular de lá. Como eu faria pra chegar no último andar. Quais deles eram hotéis, pois é muito mais fácil se for em um hotel. Você só precisa alugar um quarto por um dia num andar elevado e…

Eu quase ria dos meus pensamentos fúnebres. Eles não me incomodavam mais ou me deixavam melancólica. Eram para mim tão banais quanto poderiam ser e eu não entendia por que a maioria das pessoas se chocava com o nome “suicídio” e tinham uma obsessão por evitar dizê-lo. Será que é porque todo mundo tem um pouco de vontade ou porque sabem que têm um pouco de culpa em cada suicídio?

Outro dos meus passatempos era imaginar como as pessoas ficariam daqui a quatro meses, quando eu tivesse concluído meu plano. Será que Inês ia me culpar? Se culpar? Será que isso a deixaria abalada o suficiente para atrapalhar seu plano?

Acho que eu sou uma pessoa cruel, porque também não me importo sobre o quanto meu plano vai afetar negativamente as pessoas à minha volta. Pelo menos não o suficiente pra me fazer desistir de pular do vigésimo primeiro andar.

“Chegamos!” Inês cantarola animada, pulando do carro logo depois de pagar o taxista. E eu não entendi toda aquela energia dela. Era só a minha casa. Nós havíamos chegado à minha casa, a mesma casa que ela já estava enjoada de ver.

Meu pai e minha mãe me esperavam do lado de fora, sorrindo. Parecia que eu estava voltando de uma longa viagem, e não que tinha dormido na casa de uma amiga.

Eles me abraçaram, me parabenizaram pela centésima vez e expressaram seu orgulho por mim. E eu fiquei sem saber qual deveria ser minha reação.

Assim que eles abriram a porta, pude ver a festa. E entendi por que Inês estava tão animada. Essa foi a primeira festa surpresa que meus pais organizavam que realmente me surpreendeu. E pensando bem, não foi porque o momento era inesperado ou porque ninguém havia dado nenhuma pista. É que eu simplesmente não pensava mais nas coisas. Eu não tentava mais entender os motivos das pessoas ou ligar uma ação a outra. A minha vida se passava na minha frente como pedaços cortados, desconexos e sem sentido. E eu não sentia vontade de fazer alguma coisa para juntá-los.

Eu precisei de um tempo pra me acostumar com a nova cena à minha frente e lembrar que ela estava realmente acontecendo e que eu precisava fazer alguma coisa, que as pessoas esperavam que eu esboçasse alguma expressão. Nicholas é sempre muito rápido para mim e nunca me deixa terminar de pensar – pulou em mim e me abraçou antes de tudo. Havia gente demais ali. Mais gente que o necessário ou aceitável. Sem dúvidas, coisas da minha mãe. Havia gente ali que sinceramente não dava a mínima se eu havia sido aprovada numa faculdade ou atropelada por um trem. Deviam estar ali pela comida ou porque simplesmente não quiseram desagradar minha mãe.

Eu subi para o meu quarto sem cumprimentar metade das pessoas que deveria. A mochila com roupas e CDs que eu levara ainda estava pesando nas minhas costas e minha jaqueta e botas estavam sujas de neve.

Do corredor, eu ouvi música vindo do meu quarto. E eu obviamente não havia deixado nenhuma música tocando. Se não tivesse visto Nicholas lá embaixo, poderia jurar que era ele e sua irritante mania de revirar o meu quarto.

Mas quem estava deitado na minha cama vendo meu DVD MTV Unplugged Nirvana era Sara.

Eu mal falava com Sara. Meus pais mal a conheciam. Nós não tínhamos amigos em comum – não mais. Eu realmente não sabia como ela poderia estar ali.

Sim, eu estudei três anos com ela antes do Ensino Médio, mas nós éramos duas idiotas na época – de maneiras muito diferentes – e não nos dávamos bem. Não que brigássemos. Só não éramos interessantes uma para o outra e mantínhamos uma saudável distância.

Estranhamente, nos aproximamos mais nos últimos anos, quando quase não nos víamos. Sempre por mensagens. Nós mudamos muito e muito rápido e ao mesmo tempo, e, de alguma forma, nos tornamos tão parecidos que era até bizarro. Eu tinha um pouco de medo de Sara por isso. Tinha medo de ver o que não queria e saber que eu era daquele jeito também. E tinha medo que ela me descobrisse, porque eu amava me esconder. E tinha medo porque sabia que eu podia sentir algo de verdade por ela, diferente dos sentimentos superficiais que eu tinha a respeito de quase todo mundo.

Eu não precisava de sentimentos reais, mesmo. Eu já era confusa o suficiente. E eu tinha um prazo.

Era por isso que, nas poucas vezes que nos falávamos, eu sempre me continha. Eu nunca saia dos eixos, eu tentava parecer uma pessoa saudável e sóbria.

E embora ela se comportasse assim também, eu sabia que Sara não estava nada saudável ou sóbria.

Eu me sentei na cama, ao seu lado.

“Acho que esse é o único clássico que eu nunca canso de ver” ela fala sem olhar pra mim, apontando para a televisão com o controle remoto.

“O que está fazendo?”

“Sua mãe me chamou” deu de ombros. “Provavelmente era meu papel ficar lá embaixo, mas estava muito cheio de gente. Seu quarto é o melhor lugar da casa” ela me sorriu, mais gentil do que costumava ser. E o sorriso de Sara era lindo, ainda mais por ser tão raro.

“Minha mãe acha que esse é o evento do ano” eu reclamei, tirando minha jaqueta imunda e jogando num canto qualquer. Deitei na minha cama espaçosa, com os braços debaixo da cabeça. “Ela sabe que eu odeio atenção.”

Sara deu de ombros. Diferente de mim, ela sabia aproveitar a atenção que recebia. Em seu último aniversário, por exemplo, quando a família dela inteira veio para a cidade, até os primos do interior, ele fez o favor de informar a todos que eles eram nojentos.

“E você? Quais são seus planos?”

“Eu fui aprovada pela Universidade que queria, mas vou ter que mudar de estado” ela disse, sem fazer muito caso.

“Isso é ruim?”

“Sei lá. Ultimamente venho tendo a sensação de que nada nem lugar nenhum é bom suficiente para mim” ela piscou um olho, mas eu sabia que Sara estava falando sério, mesmo assim.

“Isso que dá ter um ego enorme.”

“Eu concordo” ela sorriu torto, repetindo Jesus Doesn’t Want Me For a Sunbeam. “Eu tenho vários planos, Silvya, mas nenhum me satisfaz. Ficar aqui também não me satisfaz.“

Eu fiquei assistindo ao vídeo, sem ter o que dizer. Olhei para o cabelo imundo de Kurt Cobain e lembrei da vez em que meu pai me perguntou se eu me inspirava nele para não tomar banho.

“Você não me parece muito feliz pra alguém que entrou numa Universidade que todo mundo se mata pra entrar.”

Eu suspirei. E dei de ombros. Levantei-me e me pus de frente à televisão.

“Eu só preciso de uns cigarros e vou ficar feliz pra caralho.”

“Você quer comprar cigarros agora?”

“Você tem medo de neve?”

Eu não vi meus pais quando descemos e achei isso muito bom. Porém, acabei não escapando das perguntar inoportunas, já que Nicholas estava encostado na parede perto da porta, vendo alguma coisa em seu celular.

“Vocês vão sair?” “Vão aonde?” “Comprar doces? Vocês vão sair pra comprar doces nessa neve?” “Ah, pelo menos vá no seu carro.”

Eu respondi que queríamos caminhar sozinhas um pouco, pra ver se Naruto se acalmava e parava de falar alto. Mas não pude sair sem antes vê-lo piscar pra mim, cheio de insinuações sobre minha acompanhante e eu. Nicholas sempre se preocupara mais com a minha vida amorosa do que eu mesma – não era uma competição muito acirrada.

Havia um posto onde eu poderia comprar meus cigarros bem perto de casa. Mas eu guiei Sara para um que nos fez andar bastante porque queria aproveitar uma vista em particular. Nós andamos o caminho todo em silêncio, e pra falar a verdade, acho que pensávamos em tanta coisa que mal lembrávamos da existência da outra.

Sentamos em um banco do lado de fora do posto e acendemos os cigarros. Eu estava de frente a um dos prédios mais bonitos da cidade, cheio de vidros e detalhes pretos e ângulos inusitados em todos os cinquenta andares. Era um hotel. Havia um pequeno jardim no térreo. Era lindo.

“Está planejando pular de lá ou o que?” Sara perguntou com o humor ácido que sempre usava para mascarar um ponto sério ou suas verdades.

“Eu poderia roubar, também.”

“Nesse caso, você teria que chegar mais perto pra observar.”

Eu expulsei a fumaça com mais força do que era necessário. Às vezes, a perspicácia de Sara me irritava.

“Você acha que sabe de coisas que não sabe.”

“Eu sei que, ultimamente, sempre que você fala comigo, você está se despedindo.”

“Você é que está se despedindo. Você vai mudar de estado, lembra?”

Sara me olhou sem paciência e suspirou, balançando a cabeça.

“Eu não sou como os idiotas que convivem com você. Eu sei qual é o pensamento número um na sua cabeça agora mesmo.”

“E por que está falando disso? Você sabe que não vai me impedir.”

“Não. Eu estou falando porque você não está pronta.”

E eu ri. Eu ri porque, céus, eu vinha me preparando para isso a vida toda.

“Você diz que quer morrer, mas se inscreveu no teatro pra começar próximo ano. E no curso de alemão. E me disse que ainda vai aprender italiano, francês e japonês. E você ainda vai ao dentista. E você ainda compra coisas e sente vontade de comprar mais. Pra que, se você não vai usar? Por que você fica marcando uma data daqui a quatro meses, sem nada de especial, quando o prédio está bem na sua frente e você podia pular agora?”

A voz de Sara parecia desafinada e horrível, parecia cruzar meu cérebro e fazer picado dele. Eu quis correr dali, mas meu corpo não se mexeu. Eu chorei com tanta raiva que achei que quebraria meus dentes, e odiava incontrolavelmente Sara.

“Você não quer morrer, você só quer fugir” sua voz era dura e introspectiva. E sem piscadas de olho, sorrisos ou fingimentos. “E eu preciso fugir também.”

“Olha” ela continuou, recuperando sua objetividade usual. “Às 17h30min passa um ônibus aqui todos os dias que leva à cidade vizinha. Eu estou pensando em pegá-lo qualquer dia desses. Ir viajando até encontrar um lugar que me deixe satisfeita.”

“E você quer que eu vá junto?” eu debochei, com uma sobrancelha levantada.

“O que tem? Você já ia deixar tudo pra trás mesmo.”

Quando Sara olhou pra mim, seus olhos eram a coisa mais quente que eu havia presenciado naquele inverno. Eu tive vergonha do quão opacos os meus deveriam parecer naquele mesmo momento.

“Eu não acho que fugir vá adiantar, sabe. Eu não estou cansada dessas pessoas, eu estou cansada de todas as pessoas. Eu estou cansada do mundo inteiro, não só dessa cidade. Eu estou cansada de estar presa no meu próprio corpo e nas minhas ideias.”

Isso era o que eu queria ter dito a Sara, mas eu não disse. Eu fiquei calada. Eu não queria parecer frágil.

“Sabe, sempre tem um prédio.” Ela disse, com bastante tédio.

“Como?”

“Em qualquer cidade tem um prédio e você pode pular dele a hora que quiser, você não precisa ficar aqui para isso. Você disse que estava cansada das pessoas, mas está aqui conversando comigo numa boa.”

“Você é diferente.” Eu praticamente reclamei, girando os olhos.

Sara afogou o cigarro na neve e se ajoelhou na minha frente. Me encarou como se eu fosse uma criança e ela estivesse prestes a fazer uma promessa que nunca cumpriria.

“Posso mudar o que você vê. Estou cansada de fazer planos. Vem comigo, agora?”

O ônibus parou atrás dela, a poucos metros de nós. Não ficaria ali por muito tempo. Sara se levantou, deu uma última olhada para mim e andou até a parada. Eu vi as cinzas serem sufocadas pela neve. Sara precisava sair da pequenez e da mediocridade. Ela era grande demais para tudo aquilo. Sinceramente, eu não sabia de que tamanho eu era. Mas eu tinha dinheiro suficiente para a minha passagem. O mundo era ruim e feio, mas se eu pudesse me isolar numa bolha com Sara e ficar lá pra sempre, as coisas não podiam ser tão ruins assim. Eu podia viver com isso.

E se eu fosse pequena demais a ponto de ser sufocada, bem… Tem sempre um prédio.

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