Amor é dinheiro.

O amor clama ter a resposta para tudo.

Perto, perto e perto. Ficava mais perto. Eu sempre fora obcecada pelas imagens que se formam quando fechamos os olhos e apertamos as pálpebras com as mãos. Quando criança, eu podia ficar minutos a fio assistindo ao destino delas, tentando prevê-las e controlá-las. Eu sabia suas cores, suas formas e seus movimentos. Eu ainda assisto, tento prever e controlar, embora não saiba mais as cores, nem as formas, nem movimentos e nem a natureza disto.

Eu pude ouvir as vinte vozes daquele lugar, como se eles tivessem resolvido existir juntas, para bloquear meu objetivo. Então estava eu num Café. Havia vindo visitar uma tia na capital e a família resolvera se reunir naquela mesa. Meu pai, minha mãe, minha irmã estavam todos lá, conversando e comendo. As outras pessoas nas mesas, cada uma em suas conversas particulares, os funcionários olhando para o relógio, todos lá. Eu estava naquele lugar há mais de meia hora, mas pareceu que ele havia acabado de ser montado por alguma espécie de mágica. Como se as paredes tivesse chegado há pouco tempo no chão, o cenário tivesse sido montado como um quebra-cabeça e minha família tivesse chegado por teletransporte. Quase pude ver através deles.

Eu também tinha a minha comida – mais precisamente, um café. Um café mocha entupido de baunilha – mais pela decoração e profilaxia do tédio do que pela expectativa da degustação. Porém, estava lá há tanto tempo, intacto, que eu sentia que o café pertencia mais às bactérias do ar do que a mim.

Eles conversavam sobre política. Meu pai e minha mãe eram politizados até acima da média, quando comparados aos pais dos meus colegas. Minha irmã, embora não procurasse ter uma real informação, adorava expressar suas opiniões quase sempre inoportunas, vomitando um senso comum que raramente era repreendido. Eu gostaria de dar minha opinião, também, mas eles não iriam gostar. Minha mãe vivia dizendo que não era uma mulher moderna, e talvez eu fosse mais moderna do que ela desejaria.

“Política é dinheiro” meu pai dizia, talvez tão altivo quanto Descartes quando proclamou “penso logo existo”.

Tempo é dinheiro, ele dissera também, em outra época.

Lutei contra as bactérias e tomei o café todo de uma vez, tentando não me concentrar em como ele descia lento e pegajoso pela minha garganta. Notei, com certa impaciência, a falta de uma lixeira por perto. Não queria ficar olhando para aquele copo seco e lembrando do café, também. Levantei-me sem dizer nada e me dirigi à lixeira perto da saída. Me aproximei o bastante para que a fraqueza da minha mão não me impedisse de acertar o alvo.

Eu acertei, não só o alvo, mas outra pessoa também. Nós chegamos à almejada lixeira quase ao mesmo tempo, vindos de diferentes direções, e mesmo assim, eu não a havia visto antes que meu copo se chocasse contra sua mão e pequenas gotas de café se derramassem. Ela, que não devia ter muito mais nem menos que a minha idade, me olhou diretamente e sorriu simples, como que em sinal de perdão.

Ela apenas me olhou dois segundos, e logo voltou a atenção para os amigos. Mas pra mim, pareceram longos minutos. Assim como o cenário de antes me pareceu recém-montado e eu me senti tonta com a rapidez em que me vi na conversa, agora eu sentia como se tivesse tempo suficiente para me mover por todo o Café e ela ainda estaria olhando para mim. Eu pude ver seu cabelo bagunçado de um jeito esquisito para ser atraente, vi sua face a contradizendo por ser tão branca e suave. Vi a agressividade de seus olhos verdes e seu nariz reto se desmancharem nos lábios gentis e no maxilar fino. Suas roupas também eram uma contradição: negavam seu porte elegante e disfarçavam o orgulho. Ela era deveras muito bonita, e não precisava de nada para ostentar isso. Suas roupas eram as mais simples e apagadas possíveis, não usava nenhum acessório. Eu também usava, e sempre, roupas simples e quase nenhum acessório, mas por motivos bem diferentes. Eu não tinha a melhor avaliação sobre minha aparência e não queria me maquiar, escolher boas roupas, sapatos e penteados só para depois lembrar que nem assim eu era bonita como minha amiga Rachel, por exemplo. Meu súbito interesse era agora insuportável. Era insuportável saber que eu não a encontraria mais e sequer saberia se era digna da minha atenção. Era desgastante perceber que, na verdade, eu não me importava tanto assim.

Longe, longe e sim, nunca mais perto. O cenário era entre o desmontável e o sólido: estava derretendo. De novo, eu não pude assistir, nem prever, nem controlar. Não pude descobrir o que era.

Tempos depois, ouviria meu pai dizer:

“Amor é dinheiro!”

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