On my sleeve

Um dia…?

Um mês?

Dois? Três?

Sem importância. Fazia tempo. Fazia muito tempo que algo assim não acontecia comigo.
Eu era uma garota do Ensino Médio. Normal. Acho que as pessoas gostavam de mim, mas não era como se eu fosse exatamente popular. Eu estava feliz do jeito que estava. Eu tinha uma mãe normal, nem muito ausente, nem muito atenciosa. Meu pai era tão protetor que às vezes me irritava. Mas eu estava satisfeita com isso.

“Eu não queria ir embora” dizia Raquel, com sua voz manhosa e seu bico formado.

Ela era minha melhor amiga. Estávamos no intervalo, e falávamos sobre a partida dela. Ela iria para uma cidade maior, um colégio maior, um lugar melhor. Eu estava feliz por ela. Mas, logicamente, também estava triste.Se a Raquel for embora, pensava eu, tudo bem. Eu ainda tenho as outras meninas. E claro, eu tenho a Bianca. Ou branquela, como eu costumava chamar e ela costumava odiar. Eu não sei definir o que eu sentia por ela, já havia deixado essa compreensão de lado há muito tempo. Mas não acredito que fosse algo de cunho amoroso. Era mais como uma confiança e segurança excessiva, como se eu sempre pudesse correr para ela, no fim das contas. Era egoísta. Acho que não é justo que uma pessoa dependa tanto assim da outra. Digo, não era justo com ela. Eu deveria antes perguntá-la se podia contar tanto assim com o meu branquela, se podia guardá-la debaixo da minha manga como última carta. Tanto faz. Eu sempre guardei. Me pergunto se ela soube disso alguma vez.

Olhei para o copo de milkshake em minha mão. Não era meu. O vento frio do inverno tenebroso batia contra ele, mas o líquido continuava lá, mexendo-se, sem parar, sem congelar. Entretanto, eu sabia, uma hora ele iria congelar. E a melancolia que me tomava naquele dia cinzento e nublado fazia com que eu me perguntasse se um dia, eu também não congelaria.

Um, dois, três…

…Cinco meses?

Mais?

Sim, provavelmente mais. Eu sequer me lembrava qual havia sido a última vez em que me encontrara apaixonada. Ou com um sentimento especial de qualquer outra natureza, qualquer um que enchesse meu peito e colocasse um sorriso automático e sincero em meu rosto. Quem sabe, um que fizesse minhas mãos tremerem, minhas bochechas tão propícias corarem, meus lábios chacoalharem enquanto minha voz esganiçada tentava fazer com que alguém me ouvisse.

Quanto tempo?

Muito. Talvez, eu estivesse congelando sem saber. Sem saber como ou quando esse processo começou. Sem vontade de pará-lo.

Talvez eu estivesse sendo envolta pelo gelo, assim como ela parecia estar.

“Já volto” disse às meninas, levantando-me. Raquel olhou-me de esguelha, curiosa. Não vi quando deu uma desculpa, mas vi quando me seguiu. Não havia problema.

Logo me aproximei da mesa, na parte coberta do pátio. Os meninos – e Bianca – sempre sentavam lá. Encontrei meu alvo, e bufei, cansada. Quando Rafael iria deixar de ser tão folgado?

“Está aqui o milkshake que você me pediu para comprar e nem teve a decência de ir buscar” brinquei.

Ele me lançou aquele sorriso debochado, e os outros caçoaram dele. Pelo menos, a maioria o fez.

“Ei! Você derramou quase metade!” ele protestou, examinando sua compra.

Olhei em seu interior também. Era verdade. Disfarcei um sorriso amarelo.

“Desculpa” pedi. Rafael me lançou um olhar diferente e fez uma linha fina e torta com os lábios, deixando-me saber que aquilo era besteira, nada demais. Nada com o qual eu devesse me preocupar. Sorri também, agradecendo-o.

Senti quando Raquel passou o braço pelo meu pescoço, trazendo-me para mais perto dela. Ou, pelo menos, para mais perto dos seios dela. Minha amiga era enormemente mais alta que eu, de modo que, quando ela fazia essa ação tão comum, minha cara sempre era esmagada contra um de seus fartos seios.

Meu bom senso entrou em pânico. Sempre que ela fazia isso, era sinal de que, a seguir, viria uma brincadeira altamente imprópria envolvendo minha pessoa, e eu realmente não estava tão afim de passar vergonha na frente de todos eles. Mais uma.

“Aposto que se fosse pra branquela, você não tinha derramado nem uma gota, não é, Elise?”

Ela piscava para mim, aquele sorriso sacana. Quis sumir. Não era a primeira vez que faziam esse tipo de brincadeira comigo e com ela, mas era a primeira vez que faziam de forma tão explícita, na frente de nós duas. Quis poder apenas ficar encarando Raquel pelo resto do tempo, para disfarçar covardemente minha vergonha, mas meu pescoço teimoso me conduziu a observar as reações dos garotos. Não, deles, não. Dela. Bianca fechou os olhos com força, para logo depois fuzilar a ruiva ao meu lado com aquelas grandes íris de um turquesa único. Lindos. Aqueles olhos eram assustadores, enigmáticos, passavam a sensação de perigo. Aqueles olhos te faziam caminhar para o desespero frio impossível de ser evitado, e você daria cada passo como se estivesse dançando, como se a felicidade te queimasse, apenas por seu corpo ser pequeno demais para abrigá-la. Aqueles olhos me faziam sentir como se eu estivesse tão feliz quanto possível, faziam dos meus sentimentos, instintos. Os olhos dela eram apaixonantes, e eu me negava a contar as frustrantes vezes em que me senti apenas instantaneamente apaixonada por eles.

Só duraria um segundo. Talvez dois, cinco, dez.

E depois, iria embora.

Ela resmungou alguma coisa para Raquel, mas não a repreendeu por chamá-lo de branquela, como sempre fazia. Olhou para seu relógio, e pareceu satisfeita. Sorriu calidamente para mim, antes de se retirar da mesa. Não havia dado nem dois passos, e aquele som irritante nos avisou que a próxima aula começaria.

Eu me sentava na terceira cadeira da última fileira do canto, encostada à parede sem janelas. Ela, por mais irônico e estranho que eu achasse, sentava-se oposto a mim. Lá naquela última fileira, na parede agraciada pela grande janela. Quer dizer, naquela época do ano, os alunos dali não se sentiam tão agraciados assim. O vento congelante que teimava em balançar as cortinas era incômodo demais. Menos para ela. Bianca continuava lá, aparentemente amando o lugar.

Não me sentia bem. Era uma boa aluna, mas o professor que me desculpasse, eu não daria ouvidos a ele. Só naquele dia. Somente.

“Ela estava olhando para cá” Nina, que sentava logo atrás de mim, avisou-me, e eu demorei para seguir e encontrar aquilo no qual seus invejáveis olhos azuis focavam. Os cabelos loiros dela agora estavam no meio da sala, falando algo com certeza importante com Karine, antes que o professor chegasse. “Aposto que vem até você” ela continuou a falar.

“Por quê?” perguntei baixinho, mas sem forçar a voz. Eu já falava naturalmente baixo. Mais do que eu queria, até.

“Estão pensando em sair hoje. Sabe, nós” ela ajeitou o óculos, envergonhada, limpando a garganta. “E-embora eu não saiba se vou. Enfim. Tenho certeza que ela vem te chamar pra ir com ela”.

Abanei a mão, estranhamente nervosa.

– Que ideia.

Até parece. Completei, desta vez, apenas em minha cabeça. Virei-me para a frente. Raquel já estava em seu lugar, e eu encostei minha cabeça em suas costas. Ela não se mexeu, nem reclamou. Nunca fazia isso. Apesar de seu jeito exageradamente extrovertido, era muito carinhosa. Gostava quando eu me dispunha a um gesto como aquele, assim, por livre e espontânea vontade.

Com meus olhos camuflados – tanto pelos cabelos ruivos dela, quanto pela minha curta franja escura que caía – permiti-me espioná-la.

Ela realmente olhava pra mim. E depois, para a cadeira. Depois, retornava a mim. Como se quisesse dizer alguma coisa.

Aquilo me torturava, um pouco. Eu sabia que ela não me convidaria para uma saída à noite com os amigos, como qualquer um faria. Antes que pudesse evitar, planejei que roupa usaria para aquele acontecimento improvável. Esquematizei que meu pai me deixaria sair sem problemas, se eu dissesse que iria com ela. Bianca era uma das únicas pessoas nas quais meu pai confiava, simpatizava. Balancei a cabeça. Às vezes eu me pegava pensando desse jeito nela. Como se um dia, ela pudesse ser mais que uma amiga. Como se ela fosse me convidar para algo a dois. Por breves momentos como esse, eu desfrutava do prazeroso – e pra mim, raro –aperto no peito. Cada vez mais, ele durava mais um segundo, eu percebia. Perguntei-me se um dia, ele duraria segundos suficientes para se tornar uma sensação concreta.

Possivelmente, em todos esses meses, que talvez já tivessem se convertido em anos, eu esperasse cada acréscimo desses segundos, como se cada um fosse um pingo de areia. Talvez, eu esperasse mais um daqueles gestos singelos de Bianca que eu presenciava. Ações simples, como ela cantarolando em sua casa enquanto preparava um lanche para nós no meio da tarde. Ou a facilidade dela em manejar os lápis e deslizá-los por entre os dedos enquanto resolvia os exercícios complexos de matemática.

Talvez, ela estivesse esperando que os segundos fossem suficientes para que eu me sentisse realmente apaixonada, e assim, ela pudesse depender um pouco de mim também.

Um dia.

Dois.

Três semanas.

A cada grão de areia, eu pedia para que não demorasse tanto.

 

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