Azul e amarelo

A cidade corre, mesmo quando eu estou parada. A cidade pulsa, mesmo quando eu me sinto tão inerte que me questiono se continuo a existir. Eu não consigo me mexer. O trem parou, é hora de eu descer. Tento mover minha perna. Ela não pertence mais a mim, continua imóvel. O futuro é agora, e cada segundo parada é uma falha.

Eu sou jovem, um tanto quanto egoísta e absorta em mim mesma. É fácil ser obcecada pelo seu mundo interior quando se é sozinha. E por isso mesmo estou ainda sentada, sem conseguir perceber o que está à minha volta, presa numa confusão mental a qual eu mesma instaurei.

Há uma flor em meu cabelo. Penso se o adereço que Marina me pôs me faz parecer mais otimista ou esperançosa. A flor é de sua cor favorita, amarelo. Vívida e quente, como ela. Eu olho para Marina como quem vê um pássaro bonito voando. Nunca irei alcançá-la. Nunca irei entendê-la. Marina sempre me faz sorrir, mesmo que seja só por contemplar a leveza com que ela rodopia em cima de cada dia do mês. As cores frias e pesadas se acumulam no fundo. Ficam inertes. Não conseguem andar. Quando tentam, suas pernas não respondem.

Desperto para alguém que me pede o lugar. É uma senhora, e pelo visto, não é a primeira vez que pede. Só então percebo que o trem começou a andar novamente. Olho para ela desesperada. Minha garganta fecha. Meus olhos pedem socorro numa língua que ninguém entenderia. Cada célula do meu corpo resolve que eu sou muito incompetente para mandar nelas. Sou abandonada, deixada para ser morta pela minha consciência que diz: em cada esquina há uma erro seu, em cada degrau uma rejeição diferente te espera. Em cada subida, o tombo vai ser maior. Não tente se esforçar. Não tente melhorar. Não tente amar. Não tente ter empatia. Não tente se mexer.

A senhora resolve desistir de mim e vai embora. Por esse tempo minha cabeça já não consegue distinguir o que está em qual lugar. Tudo dentro e fora do trem parece ter sido redistribuído, reconfigurado num panorama que eu não fui ensinada a ler. Meu cérebro parece uma máquina velha e complexa, prestes a quebrar sua última engrenagem.

Sinto uma dor em minha perna, ao mesmo tempo que ouço barulhos das pessoas ao meu lado. Meu pescoço se mexe pra baixo, quebrando a letargia. É doloroso como uma escultura se rachando. Dói mais em minha alma trincada que em minha perna, apunhalada. Apunhalada por mim mesma, pelo canivete que trago comigo para me proteger dos outros. Vejo o líquido rubro e quente preencher minha calça. Algo mais a inunda. São lágrimas. Demoro a reconhecê-las como minhas. Me sinto desesperada ao perceber que virei espectadora de mim mesma. Abandonei meu corpo, ou ele me abandonou. O que sei é que não somos mais um. Cada veia parece irreal. Cada centímetro de pele é um espaço que eu não consigo tocar.

Nas anotações do médico, tudo isso se resume em: crise de ansiedade aguda, fobia social, automutilação, despersonalização.

Pego meus novos remédios, que prometem prevenir a crise de ansiedade aguda, fobia social, automutilação, despersonalização e muito mais. Nenhum deles é amarelo, como Marina.

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I can’t erase you.

I don’t understand why we can’t talk anymore. Why I can’t touch you anymore. Why do I have to keep your perfume in a box? Why can’t I snort it in your neck?

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The truth is, I can’t forget you. I pathetically still listen to our song. The one that says that you though you would never find me. I was the first person you fell in love with. I was the one that made sex mean something to you. I still have the image of your frown when you were about to cum and it is so beautiful. I still have the lyrics you made for me. Our story is so beautiful, but the end is so ridiculous. I don’t it to be the end. Shit, I still love you. You’re my Venus, the godess of love, how can I scape from you? You made me a better person, like no one else was capable of. I love all of you. Everything. Your voice is still on my ears. Your kiss is still on my lips. Your touch is still in my body, all of my body. Our conversations late at night are still on my memory. I can’t erase it. You’re still on my heart. I already tried to erase it. But you wrote it very bold.

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I don’t want nobody to know what I still feel for you. They wouldn’t understand. They wouldn’t accept. But I feel, I feel so strong that it seems something concrete, something that I can’t take in my hands. I wish I could throw it away. But all I do is cherish it. And then the pain comes. Because I can’t give it to you anymore.

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Carolina

Carolina era uma garota linda. Com sua pele branca se desfazendo feito neve, seus olhos brilhantes e convidativos. Eu cheirava toda sua pele, ávida por mais e mais. Nunca era suficiente. Carolina tinha uma tatuagem de escorpião no pescoço, ela deixava na cara que não era alguém para se brincar. E mesmo assim, todos a adoravam e a cheiravam sem medir as consequências. Meu caso com ela era longo. Eu sabia das consequências, mas porra, ela era tão linda e eu sentia do fundo do meu coração que Carolina era o amor da minha vida. Eu passava longos meses sem falar com ela, como um charme pra ela não me controlar, mas quando me dava conta, lá estava eu, nos braços dela. Claro que eu também me jogava nos braços de outras, e Carolina não se importava, porque sabia que era a dona da alma que eu sequer tinha, mas que podia inventar só pra que ela a possuísse. Além do mais, Carolina era muito amiga de Ana, e juntas, me davam vários conselhos. “Já se pesou hoje?”. “Você não precisa comer, vá beijar Carolina e a fome passa”. Carol me sussurrava “antes de sair, veja se seu nariz não está nevando”.

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Carol me fazia dançar. Carol não me provocava sentimentos indesejados, como as outras. Com ela, era tudo puro divertimento. Com ela, eu sentia que havia finalmente encontrado a frequência de mim mesma.

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Eu posso ter incontáveis namoradas, e jurar nunca mais ver Carolina. Tudo mentira. Eu pago pra ver Carolina. Eu sinto o cheiro dela de longe. Eu sei onde ela vai estar. E mais uma vez, ela me faz dançar, trair, agir por impulso, ser inconsequente, porque Carol tem pressa. E no fim, eu não consigo dormir. Viro noites com saudade dela, quando ela vai embora de repente. Tudo porque eu me acovardei e não tive culhões para pagar alto o suficiente. Com dinheiro e também com minha alma.

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Querido amigo

Querido amigo,

Quando te vejo, você está sempre tão frágil que parece que, a qualquer momento, vai se despedaçar ali, na minha frente. A vontade impulsiva que tenho é de te proteger como se protege um gerânio colocando-o numa redoma de vidro. O mundo não te recebeu bem. A feiura do mundo tenta sufocar a beleza da tua essência. E sua sinceridade é tanta, sua inocência é tão transparente, que você deixa todos os seus poros abertos pra feiura do mundo entrar. Pras pessoas te ferirem, cutucando os poros, abrindo-os, esticando-os, até conseguirem enfiar um punhal, uma espada, um canivete em cada um neles. E aí você sofre. E aí você sangra. E aí você chora. E aí você toma remédios demais. E aí você se destrói.

Ah, caro amigo, eu queria tanto que você aprendesse o que eu aprendi há uns anos.

Nós precisamos pegar as agulhas, as facas, os canivetes, os punhais, as espadas, arrancá-los a duras penas dos nossos poros, forjá-los todos juntos e construir uma armadura. Nós não somos compatíveis com esse mundo. Não com essa carne e esses ossos. Precisamos de uma carcaça, mesmo, que, no fim, ainda saibamos que somos feitos daquela carne e daquele osso.

Outras vezes eu queria criar um clone de mim só pra ser sua guarda-costas e te proteger de todos os babacas. Outras vezes eu queria fugir pra outro mundo com você e as outras pessoas que aprecio.

Mas não posso fazer nada disso.

Eu só posso estar aqui por você.

E a cada abraço, te apertar, pra ver se assim você não se despedaça.

E eu estou aqui por você.

Por favor, fica inteiro?

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Flora

Na primeira vez que eu a vi eu soube que ela se encaixava em mim. Ela, com sua maquiagem rosa desajeitada, de shorts e tênis, com seu cabelo colorido e tão, tão tímida que se contava nos dedos quantas palavras ela falou. E eu aguardava ansiosamente cada frase que ela dissesse, moldada com sua voz tão bonita que me fez gostar até das músicas que eu não gosto, desde que seja ela quem cante.

Na segunda vez que eu a vi eu quis tanto, tanto falar com ela. Mas parecia que havia uma barreira, na qual eu sempre esbarrava quando me jogava contra ela pra dizer alguma coisa. Tínhamos a mesma camiseta, que ficava mais linda nela do que jamais ficaria em mim.

Na terceira vez que eu a vi, meu ego ferido a fez superá-la. Deixa pra lá, ela jamais vai ver algo de interessante em você. Mal sabia eu que ela lembrava de mim nesse dia mais do que eu lembraria dela.

A quarta vez que eu a vi me fez querer ficar com ela tantas vezes quanto possível. Sim, a quarta, e eu odeio números pares, mas esse até que é bonito. Quando nos beijamos, um beijo que demorou horas pra acontecer, atrasado pela falta de coragem de ambas, tudo mexeu. Tudo entrou em aceleração. Não demorou muito pra só ela fazer sentido. Foi um pulo pra que ela desse gosto aos meus dias.

E eu amo tudo sobre ela agora. O sorriso dela, a pele dela, o cheiro dela – que felizmente sempre fica nas minhas coisas. O abraço dela, o toque dela, o jeito dela. Deitar com ela fazendo nada, ouvir as músicas que ela gosta, o carinho que fazemos nas nossas mãos, as noites insones conversando sobre tudo. Eu olho pra ela deslumbrada e ela me pergunta inocente “o que foi?” Nada. Só eu contemplando a grandiosidade e a forma bonita do que eu sinto por você. Eu sou fascinada por cada detalhe seu. Fica comigo. Até você aguentar. Você é o melhor ansiolítico que existe. Você colore meu dia como meus remédios coloridos tentam fazer e falham. Você faz eu querer ter uma alma, só pra ela acariciar a sua. Eu te amo. Honestamente, sinceramente, totalmente.

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Sobre meu amor por você

Nietzsche, esse fracassado recalcado de quem não podemos deixar de gostar, dizia que o amor e ego são a mesma coisa com nomes diferentes, que amor é posse. Ele, de fato, dedicou certo tempo em desconstruir toda a beleza que os românticos reputaram ao amor. Realmente, amor e posse, estão, no mínimo, interligados. Por outro lado, Sartre dizia que nos atraímos justamente pela independência e liberdade que enxergamos no outro. Não, não te quero minha. Te quero sua e te quero porque você é sua e só sua. Meu desejo de posse se limita à posse da tua companhia. Que me deixe te ver, te tocar, te sentir – só na forma e no tempo que você me permitir. Tá, a sua pele é sua. Mas por favor me empresta ela qualquer dia desses pra eu pintar um quadro de Mondrian no seu corpo. Não que ele precise de tinta pra ser arte. Meu olho capta o que vê do teu corpo, envia as informações ao meu cérebro desregulado, que acrescenta várias outras informações e acaba que minha percepção de você é quase onírica, e ao mesmo tempo, às vezes parece a única coisa real nessa matrix que é o mundo; o concreto das minhas paredes, o tecido da minha cama, a madeira do meu guarda-roupas não são nem de longe tão reais quanto teu rosto. O resultado desse processo interno é cara de idiota que eu faço te observando por minutos a fio. Você é sua, só sua. Sua mente, suas ideias, suas ações, seu andar, seus trejeitos. Você é proprietária única e exclusiva de todo esse deslumbre. E – aguenta essa, Proudhon – acho que essa é a única propriedade que não é roubo. Mas deixa eu pensar junto com você, deixa eu abraçar você, deixa eu dormir com você, deixa eu ouvir você, deixa eu andar com você. Por um tempo. Até nosso encanto se acabar e a gente ver que a gente chora e fede como todo mundo.

Meu pensamento também é só meu, você não tem acesso a ele. Mas quando eu digo que te amo, não é só uma frase solta, dita pra impressionar –  eu não amaria alguém que se impressionasse com tão pouco. É só a verbalização que não faz jus – porque nunca faz – ao sentimento que é responsável pelas sensações vibrantes correndo pelo meu corpo quando te vejo, por você ser um entusiasmo pra acordar e viver a rotina chata, porque, pelo menos, eu vou passar umas horas com você. E esse sentimento, se verdadeiro, será observado nas ações. No meu cuidado, no meu riso e olhar idiotas de quem inegavelmente te ama, nas vezes que você vai ser minha inspiração pra tanta, tanta coisa! Espero que você fique um pouco pra observar isso. Espero que eu possa mostrar isso fielmente e precisamente. Infelizmente, eu me aproximo mais desses românticos idiotas que dos céticos como Nietzsche. Espero cada dia poder te provar um pouco que ele não estava tão certo assim em suas análises, e que o amor, apesar de ser chato, estúpido e inconveniente, provoca sensações boas e tão reconfortantes em nós humanos – que também somos chatos, estúpidos e inconvenientes – que é até bom de vez em quando na vida. Que essa galera tipo Neruda, Lord Byron, Álvares de Azevedo não são completos parvos alienados pelas sensações. Eles sabem que o amor é um impulso no meio da morbidez, mas também sabem que, uma vez que esse impulso se estingue, a morbidez se agiganta e se fortalece. A certeza da dor, do luto, do sofrimento e do cinismo futuros é o preço que pagamos de bom grado por um prazer imediato.

O inferno são alguns. Já você, é alguém que torna meu inferno suportável. Talvez nossa ânsia por amor venha disso. Vai saber.

“ME FALTA tempo para celebrar teus cabelos.

Um por um devo contá-los e elogiá-los:

outros amantes querem viver com certos olhos,

eu só quero ser tua cabeleireira”.

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Às vezes eu fecho os olhos e vejo as mesmas formas e cores distorcidas que eu via quando criança. Parece que tudo volta. A mesma angústia, a mesma solidão, a mesma rejeição. Cresci uma adulta frustrada por não ser boa em nada. Cresci uma adulta desagradável, sem amigos. Tento me convencer de que o inferno são os outros. Em todo lugar que vou, sei que não sou bem-vinda.

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