Às vezes eu fecho os olhos e vejo as mesmas formas e cores distorcidas que eu via quando criança. Parece que tudo volta. A mesma angústia, a mesma solidão, a mesma rejeição. Cresci uma adulta frustrada por não ser boa em nada. Cresci uma adulta desagradável, sem amigos. Tento me convencer de que o inferno são os outros. Em todo lugar que vou, sei que não sou bem-vinda.

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Das vezes que você me deixou ir embora

Kali era o por que não? no meu ceticismo. Eu havia construído minhas opiniões em estudos científicos e fatos materiais, ela insistia em jogar tudo por terra em nome do desconhecido. Eu odeio escrever sobre Kali, e odeio mais ainda gostar de Kali. Gostar é o eufemismo que eu negociei com minha Razão. Mas sabemos que sou mesmo é apaixonada por ela. Eu nunca vi graça nessa coisa de opostos se atraírem ou se completarem, eu era uma contradição física, eu era uma partícula negativa vagando, no fundo meio em busca de outra carga negativa. A carga de Kali não era da física, era do espírito. E isso é pior que uma simples partícula com carga positiva.

Eu abandonei todas as minhas regras para ficar com ela. O hedonismo sequestrou minha coerência lógica. Havíamos simplesmente abandonado tudo e caído na estrada; era hora de se desapegar do confortável, deixá-lo morrer pra que o novo viesse, ela disse.

Às vezes eu olhava pra ela e a odiava. A odiava por me fazer tão inconsequente, ao me levar de volta à adolescência que eu tanto repudiava. Às vezes eu fugia de casa. Passava dias sem dar satisfação. Quando eu voltava, ela só me encarava com uma sobrancelha arqueada, com aquela cara de quem podia – e iria, saber o que eu pensava através do meu olhar. Porra nenhuma, eu bradava na minha cabeça, com raiva, e marchava para o nosso quarto. Nessas noites eu sempre deitava na cama convencida a passar um tempo ignorando-a, e em meia hora, cada célula do meu corpo estava tremendo sistematicamente como uma música por causa dos toques dela. Parecia que Kali sabia exatamente onde me tocar, já que ela me conhecia desde que éramos caçadoras de Ártemis. Parecia que Kali sabia exatamente como olhar, o que dizer, no tom certo, pra me deixar deslumbrada por ela. E ah… A voz dela…

Quando ela se levantava e me deixava sozinha, eu voltava a odiá-la. Me sentia presa num sentimento que eu não podia controlar, vigiar, punir. Kali era um ponto fora da rota. Eu não tinha nada a ver com ela. Eu não queria ouvir a maioria das coisas que ela dizia, ela não queria ouvir muito do que eu dizia. E mesmo assim, eu ficava ali, completamente extasiada por estar nos braços dela. Ela dizia que nossas almas se conheciam. Bem, eu preferia pensar que nossos átomos se conheciam e se atraiam desde o surgimento do Universo. Dava no mesmo. Kali era um golpe que me levou ao chão, e eu não levantava só de otária.

Um dia, olhando pra mim, ela viu mais do que eu tinha permitido que meu rosto transparecesse. Silenciosamente, perguntou qual era o problema.

“Eu não posso ficar com você. Eu não posso pedir que você lute por mim pra sempre. Eu estou sempre indo embora, e tudo que eu queria era que você não me deixasse ir”, eu disse, com os olhos ardendo, metade frustração, metade tristeza.

“Eu vou estar aqui quando você voltar”, ela disse, somente. E eu sabia que era verdade, mas não era o bastante.

Eu me levantei, botei uma calça folgada e uma camiseta qualquer, saí. Dessa vez, não sabia para onde iria. Há muito tempo eu não estava viva o suficiente, e eu recusava o fato de que era Kali que me deixava menos morta. Euteamoeuteamoeuteamo, eu repetia, enquanto fugia de mais coisas do que parecia. Naquela noite, não sabia se voltaria pra mim. Muito menos pra Kali. Pelo menos não nessa vida.

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Cinzas

Inês tinha um plano.

“Eu vou trabalhar próximo ano, daí, juntando com o dinheiro que meu pai vai me dar, posso finalmente estudar na Itália. Você não sabe como as coisas lá são mais fáceis pra gente como eu. Eu vou sentir sua falta”. Nisso, ela encosta sua cabeça em meu ombro e me dá um abraço. Eu me encolho, e tento me controlar para não me contorcer. De uns tempos para cá, essa era a minha resposta a qualquer contato físico. Mesmo que fosse da minha melhor amiga. Mesmo que fosse uma das pessoas que eu mais gostava no mundo. E isso não me surpreendia mais. Era só uma constatação, sem nenhum juízo de valor.

“E você? Qual o seu plano?”

Meu plano? Eu não tinha um. Quando você é como eu sou, não existem mais planos. Não existe mais futuro, não existem mais cenas da sua futura casa, seu futuro marido, filhos ou trabalho. Nada vem à sua cabeça. É como aquele jogo infantil de amarelinha, só que o último quadrado representa uma data específica nos próximos quatro meses.

Ah, é. Eu tinha um plano. Um único plano, que impossibilitava a existência de qualquer outro plano. Mas acho que é melhor Inês não ficar sabendo dele.

Ela já estava suficientemente acostumada comigo para não estranhar ter meu silêncio como resposta à sua pergunta. No carro em que estávamos, a temperatura era razoável, mas lá fora, fazia um frio cortante. A neve se acumulava na beira das calçadas e as ruas estavam quase totalmente vazias. No dia anterior, eu havia recebido a carta de aprovação para uma boa Universidade, e dormira na casa de Inês. A carta que faria qualquer um pular de alegria não causou nenhuma emoção em mim. Eu sorri só para não parecer estranha. Pra não deixar tão óbvio que havia algo de errado comigo. A carta, em nenhum momento, ameaçou meu único plano inabalável.

“No que você está pensando?” a voz de Inês surge outra vez, colorindo meus pensamentos.

“Nada. É que eu gosto da cidade quando neva.”

Quando você é como eu, seu maior passatempo é observar os prédios da cidade. Quanto mais alto, mais deslumbrante e interessante. Eu não era nenhuma amante da arquitetura. Eu olhava cada prédio imaginando como seria pular de lá. Como eu faria pra chegar no último andar. Quais deles eram hotéis, pois é muito mais fácil se for em um hotel. Você só precisa alugar um quarto por um dia num andar elevado e…

Eu quase ria dos meus pensamentos fúnebres. Eles não me incomodavam mais ou me deixavam melancólica. Eram para mim tão banais quanto poderiam ser e eu não entendia por que a maioria das pessoas se chocava com o nome “suicídio” e tinham uma obsessão por evitar dizê-lo. Será que é porque todo mundo tem um pouco de vontade ou porque sabem que têm um pouco de culpa em cada suicídio?

Outro dos meus passatempos era imaginar como as pessoas ficariam daqui a quatro meses, quando eu tivesse concluído meu plano. Será que Inês ia me culpar? Se culpar? Será que isso a deixaria abalada o suficiente para atrapalhar seu plano?

Acho que eu sou uma pessoa cruel, porque também não me importo sobre o quanto meu plano vai afetar negativamente as pessoas à minha volta. Pelo menos não o suficiente pra me fazer desistir de pular do vigésimo primeiro andar.

“Chegamos!” Inês cantarola animada, pulando do carro logo depois de pagar o taxista. E eu não entendi toda aquela energia dela. Era só a minha casa. Nós havíamos chegado à minha casa, a mesma casa que ela já estava enjoada de ver.

Meu pai e minha mãe me esperavam do lado de fora, sorrindo. Parecia que eu estava voltando de uma longa viagem, e não que tinha dormido na casa de uma amiga.

Eles me abraçaram, me parabenizaram pela centésima vez e expressaram seu orgulho por mim. E eu fiquei sem saber qual deveria ser minha reação.

Assim que eles abriram a porta, pude ver a festa. E entendi por que Inês estava tão animada. Essa foi a primeira festa surpresa que meus pais organizavam que realmente me surpreendeu. E pensando bem, não foi porque o momento era inesperado ou porque ninguém havia dado nenhuma pista. É que eu simplesmente não pensava mais nas coisas. Eu não tentava mais entender os motivos das pessoas ou ligar uma ação a outra. A minha vida se passava na minha frente como pedaços cortados, desconexos e sem sentido. E eu não sentia vontade de fazer alguma coisa para juntá-los.

Eu precisei de um tempo pra me acostumar com a nova cena à minha frente e lembrar que ela estava realmente acontecendo e que eu precisava fazer alguma coisa, que as pessoas esperavam que eu esboçasse alguma expressão. Nicholas é sempre muito rápido para mim e nunca me deixa terminar de pensar – pulou em mim e me abraçou antes de tudo. Havia gente demais ali. Mais gente que o necessário ou aceitável. Sem dúvidas, coisas da minha mãe. Havia gente ali que sinceramente não dava a mínima se eu havia sido aprovada numa faculdade ou atropelada por um trem. Deviam estar ali pela comida ou porque simplesmente não quiseram desagradar minha mãe.

Eu subi para o meu quarto sem cumprimentar metade das pessoas que deveria. A mochila com roupas e CDs que eu levara ainda estava pesando nas minhas costas e minha jaqueta e botas estavam sujas de neve.

Do corredor, eu ouvi música vindo do meu quarto. E eu obviamente não havia deixado nenhuma música tocando. Se não tivesse visto Nicholas lá embaixo, poderia jurar que era ele e sua irritante mania de revirar o meu quarto.

Mas quem estava deitada na minha cama vendo meu DVD MTV Unplugged Nirvana era Sara.

Eu mal falava com Sara. Meus pais mal a conheciam. Nós não tínhamos amigos em comum – não mais. Eu realmente não sabia como ela poderia estar ali.

Sim, eu estudei três anos com ela antes do Ensino Médio, mas nós éramos duas idiotas na época – de maneiras muito diferentes – e não nos dávamos bem. Não que brigássemos. Só não éramos interessantes uma para o outra e mantínhamos uma saudável distância.

Estranhamente, nos aproximamos mais nos últimos anos, quando quase não nos víamos. Sempre por mensagens. Nós mudamos muito e muito rápido e ao mesmo tempo, e, de alguma forma, nos tornamos tão parecidos que era até bizarro. Eu tinha um pouco de medo de Sara por isso. Tinha medo de ver o que não queria e saber que eu era daquele jeito também. E tinha medo que ela me descobrisse, porque eu amava me esconder. E tinha medo porque sabia que eu podia sentir algo de verdade por ela, diferente dos sentimentos superficiais que eu tinha a respeito de quase todo mundo.

Eu não precisava de sentimentos reais, mesmo. Eu já era confusa o suficiente. E eu tinha um prazo.

Era por isso que, nas poucas vezes que nos falávamos, eu sempre me continha. Eu nunca saia dos eixos, eu tentava parecer uma pessoa saudável e sóbria.

E embora ela se comportasse assim também, eu sabia que Sara não estava nada saudável ou sóbria.

Eu me sentei na cama, ao seu lado.

“Acho que esse é o único clássico que eu nunca canso de ver” ela fala sem olhar pra mim, apontando para a televisão com o controle remoto.

“O que está fazendo?”

“Sua mãe me chamou” deu de ombros. “Provavelmente era meu papel ficar lá embaixo, mas estava muito cheio de gente. Seu quarto é o melhor lugar da casa” ela me sorriu, mais gentil do que costumava ser. E o sorriso de Sara era lindo, ainda mais por ser tão raro.

“Minha mãe acha que esse é o evento do ano” eu reclamei, tirando minha jaqueta imunda e jogando num canto qualquer. Deitei na minha cama espaçosa, com os braços debaixo da cabeça. “Ela sabe que eu odeio atenção.”

Sara deu de ombros. Diferente de mim, ela sabia aproveitar a atenção que recebia. Em seu último aniversário, por exemplo, quando a família dela inteira veio para a cidade, até os primos do interior, ele fez o favor de informar a todos que eles eram nojentos.

“E você? Quais são seus planos?”

“Eu fui aprovada pela Universidade que queria, mas vou ter que mudar de estado” ela disse, sem fazer muito caso.

“Isso é ruim?”

“Sei lá. Ultimamente venho tendo a sensação de que nada nem lugar nenhum é bom suficiente para mim” ela piscou um olho, mas eu sabia que Sara estava falando sério, mesmo assim.

“Isso que dá ter um ego enorme.”

“Eu concordo” ela sorriu torto, repetindo Jesus Doesn’t Want Me For a Sunbeam. “Eu tenho vários planos, Silvya, mas nenhum me satisfaz. Ficar aqui também não me satisfaz.“

Eu fiquei assistindo ao vídeo, sem ter o que dizer. Olhei para o cabelo imundo de Kurt Cobain e lembrei da vez em que meu pai me perguntou se eu me inspirava nele para não tomar banho.

“Você não me parece muito feliz pra alguém que entrou numa Universidade que todo mundo se mata pra entrar.”

Eu suspirei. E dei de ombros. Levantei-me e me pus de frente à televisão.

“Eu só preciso de uns cigarros e vou ficar feliz pra caralho.”

“Você quer comprar cigarros agora?”

“Você tem medo de neve?”

Eu não vi meus pais quando descemos e achei isso muito bom. Porém, acabei não escapando das perguntar inoportunas, já que Nicholas estava encostado na parede perto da porta, vendo alguma coisa em seu celular.

“Vocês vão sair?” “Vão aonde?” “Comprar doces? Vocês vão sair pra comprar doces nessa neve?” “Ah, pelo menos vá no seu carro.”

Eu respondi que queríamos caminhar sozinhas um pouco, pra ver se Nicholas se acalmava e parava de falar alto. Mas não pude sair sem antes vê-lo piscar pra mim, cheio de insinuações sobre minha acompanhante e eu. Nicholas sempre se preocupara mais com a minha vida amorosa do que eu mesma – não era uma competição muito acirrada.

Havia um posto onde eu poderia comprar meus cigarros bem perto de casa. Mas eu guiei Sara para um que nos fez andar bastante porque queria aproveitar uma vista em particular. Nós andamos o caminho todo em silêncio, e pra falar a verdade, acho que pensávamos em tanta coisa que mal lembrávamos da existência da outra.

Sentamos em um banco do lado de fora do posto e acendemos os cigarros. Eu estava de frente a um dos prédios mais bonitos da cidade, cheio de vidros e detalhes pretos e ângulos inusitados em todos os cinquenta andares. Era um hotel. Havia um pequeno jardim no térreo. Era lindo.

“Está planejando pular de lá ou o que?” Sara perguntou com o humor ácido que sempre usava para mascarar um ponto sério ou suas verdades.

“Eu poderia roubar, também.”

“Nesse caso, você teria que chegar mais perto pra observar.”

Eu expulsei a fumaça com mais força do que era necessário. Às vezes, a perspicácia de Sara me irritava.

“Você acha que sabe de coisas que não sabe.”

“Eu sei que, ultimamente, sempre que você fala comigo, você está se despedindo.”

“Você é que está se despedindo. Você vai mudar de estado, lembra?”

Sara me olhou sem paciência e suspirou, balançando a cabeça.

“Eu não sou como os idiotas que convivem com você. Eu sei qual é o pensamento número um na sua cabeça agora mesmo.”

“E por que está falando disso? Você sabe que não vai me impedir.”

“Não. Eu estou falando porque você não está pronta.”

E eu ri. Eu ri porque, céus, eu vinha me preparando para isso a vida toda.

“Você diz que quer morrer, mas se inscreveu no teatro pra começar próximo ano. E no curso de alemão. E me disse que ainda vai aprender italiano, francês e japonês. E você ainda vai ao dentista. E você ainda compra coisas e sente vontade de comprar mais. Pra que, se você não vai usar? Por que você fica marcando uma data daqui a quatro meses, sem nada de especial, quando o prédio está bem na sua frente e você podia pular agora?”

A voz de Sara parecia desafinada e horrível, parecia cruzar meu cérebro e fazer picado dele. Eu quis correr dali, mas meu corpo não se mexeu. Eu chorei com tanta raiva que achei que quebraria meus dentes, e odiava incontrolavelmente Sara.

“Você não quer morrer, você só quer fugir” sua voz era dura e introspectiva. E sem piscadas de olho, sorrisos ou fingimentos. “E eu preciso fugir também.”

“Olha” ela continuou, recuperando sua objetividade usual. “Às 17h30min passa um ônibus aqui todos os dias que leva à cidade vizinha. Eu estou pensando em pegá-lo qualquer dia desses. Ir viajando até encontrar um lugar que me deixe satisfeita.”

“E você quer que eu vá junto?” eu debochei, com uma sobrancelha levantada.

“O que tem? Você já ia deixar tudo pra trás mesmo.”

Quando Sara olhou pra mim, seus olhos eram a coisa mais quente que eu havia presenciado naquele inverno. Eu tive vergonha do quão opacos os meus deveriam parecer naquele mesmo momento.

“Eu não acho que fugir vá adiantar, sabe. Eu não estou cansada dessas pessoas, eu estou cansada de todas as pessoas. Eu estou cansada do mundo inteiro, não só dessa cidade. Eu estou cansada de estar presa no meu próprio corpo e nas minhas ideias.”

Isso era o que eu queria ter dito a Sara, mas eu não disse. Eu fiquei calada. Eu não queria parecer frágil.

“Sabe, sempre tem um prédio.” Ela disse, com bastante tédio.

“Como?”

“Em qualquer cidade tem um prédio e você pode pular dele a hora que quiser, você não precisa ficar aqui para isso. Você disse que estava cansada das pessoas, mas está aqui conversando comigo numa boa.”

“Você é diferente.” Eu praticamente reclamei, girando os olhos.

Sara afogou o cigarro na neve e se ajoelhou na minha frente. Me encarou como se eu fosse uma criança e ela estivesse prestes a fazer uma promessa que nunca cumpriria.

“Posso mudar o que você vê. Estou cansada de fazer planos. Vem comigo, agora?”

O ônibus parou atrás dela, a poucos metros de nós. Não ficaria ali por muito tempo. Sara se levantou, deu uma última olhada para mim e andou até a parada. Eu vi as cinzas serem sufocadas pela neve. Sara precisava sair da pequenez e da mediocridade. Ela era grande demais para tudo aquilo. Sinceramente, eu não sabia de que tamanho eu era. Mas eu tinha dinheiro suficiente para a minha passagem. O mundo era ruim e feio, mas se eu pudesse me isolar numa bolha com Sara e ficar lá pra sempre, as coisas não podiam ser tão ruins assim. Eu podia viver com isso.

E se eu fosse pequena demais a ponto de ser sufocada, bem… Tem sempre um prédio.

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I don’t know how to be in a releationship. I love Venus and I think about breaking up with her almost everyday. I’m scared of how much power she has over me. She didn’t want to see me today and it broke me, I’m in pieces. How pathetitic. I don’t deserve her. I don’t even deserve to be alive. I don’t know why I was born and I don’t know why I didn’t die when I tried. Universe is a fuckbag.

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Solitaire.

“Mãe, mãe! Eu canto bem? Taís quer entrar no coral da escola e eu-”

“Não sei”.

Sua mãe resmungou, franzindo-lhe o cenho e passando apressada para seu escritório. Naquele momento, Emília soube que sua voz jamais havia sido ouvida.

Emília não entrou no coral. Entrou no teatro. O palco era o único lugar onde a luz a alcançava.

Tem ideia do quão humilhante é ser o maior alvo do seu próprio desprezo?

Emília aprendeu a performar sentimentos porque ela não tinha nenhum. Há dois meses, Renata sentava sozinha no almoço. Alguns calouros haviam descoberto que ela participava de um grupo de estudos ufológicos. “Renata acha que é um E.T.!” e riam. Emília não achava que era um alienígena. Ela não era nada vivo.

Emília era às vezes Emília, e às vezes, Millie. Emília vivia num mundo pouco convidativo e denso em demasia, raramente falava. Emília era cínica e nunca ligava de volta no dia seguinte — era fora de cogitação dar seu número certo. Millie usava vestidos florais, gostava de cozinhar, e no mínimo, reconhecia a importância de sentimentos para a espécie humana. Taís preferia Millie. Lucas tentava a todo tempo desafogar Millie da imensidão de Emília. Renata tinha medo de Emília e adorava o cabelo de Millie. De certo modo, era Millie quem salvava Emíla do completo isolamento.

Emília — ou Millie, ou as duas, ninguém jamais sabia — tinha várias paixões e ciúmes a cada mês. Ela se desesperava apenas frivolamente, ciente da superficialidade de tudo, da limitação de suas capacidades sensitivas. Por vezes, ela acalentava um fio de tristeza genuína, que logo em seguida se perdia na liquidez das sensações e na pressa da hipocrisia.

Emília nunca conseguia tornar suas paixões palpáveis, por isso ela sempre ia embora na metade da música.

Marina era mais uma de suas incertezas. Emília tinha surtos de ciúme constantes causados pelo excesso de beleza e caráter galanteador da moça. Bastava Lucas destinar um de seus sorrisos radiantes à pálida Marina que Emília passava dois dias sem conseguir falar direito com o melhor amigo.

E Marina preferia Emília a Millie.

“O que tem essa Marina, hein?”

Taís questionava, com sua sobrancelha curiosa levanta.

“Nada”, ela respondia inexplicavelmente mal humorada, quando as duas haviam acabado de ter uma conversa agradável.

Já era meia hora de atraso quando ela resolveu ir à cinemateca. Era a encarregada do mês de arquivar os novos filmes por gênero, ano, país e diretor. Tempo precioso que seria cobrado pela sra. Selma, tempo gasto em decidir se seu amor pela sétima arte era maior que sua determinação a evitar o motivo de suas três últimas crises existenciais.

Sentou-se ao lado de Marina. Com a mão esquerda, tentava providenciar uma válvula de escape para sua ansiedade. Com a mão direita, tentava se livrar do resto de seu coração. Não a olhou nem a cumprimentou. Marina sorriu, aquele sorriso desfigurado e inconvenientemente sapiente.

Marina se divertia com o fato de que ninguém percebia que 2/3 de suas palavras não eram forjadas com interesse, mas com sagacidade.

“Eu estava imaginando como você consegue passar quatro horas por semana sem olhar pra mim uma única vez”.

Zombaria causa falsa simpatia — imperícia soa como confusão.

“Seu cabelo não é tão diferente do da Medusa”.

“Eu Não Preciso De Nada”, 1968, França, Georges Louvain.

Eu não preciso — de nada. Nem do quente urso Ted de um braço só, nem de sorriso paterno, nem de conforto, nem de amizade, nem de abrigo contra a absurda realidade fulgurante, nem de braços firmes despidos de luxúria, nem da incerteza provavelmente dolorosa esculpida em 1, 78m de Marina, Marina, Marina.

“Quando as pessoas te olham você olha de volta, e sabe, você não deveria fazer isso, não é educado” pare de perfurar meus olhos com uma franqueza insuportável “é realmente uma mania horrenda”.

Marina encarou o resmungo, sem tomar posições, sem escolher armas — Emília já havia disparado as suas contra si mesma. Cada vez, a carranca emoldurada pelos cabelos negros de Marina ficava mais dura. Os momentos de provocação ficavam mais raros, os sarcasmos eram menos entendidos e os silêncios eram mais maçantes. A conexão se esfarelava sem cor, com aspecto amorfo.

Acordes de autoria de Jack White irromperam indevidamente, quase fazendo ritmo com a consequente retaliação da sra. Selma.

“Desculpe”, Marina começou a se desculpar, com uma polidez aprendida à força. “É minha namorada. O pai dela está no hospital, eu preciso ir”.

Emília tinha muita facilidade de se livrar das coisas que lhe faziam bem.

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Amor é dinheiro.

O amor clama ter a resposta para tudo.

Perto, perto e perto. Ficava mais perto. Eu sempre fora obcecada pelas imagens que se formam quando fechamos os olhos e apertamos as pálpebras com as mãos. Quando criança, eu podia ficar minutos a fio assistindo ao destino delas, tentando prevê-las e controlá-las. Eu sabia suas cores, suas formas e seus movimentos. Eu ainda assisto, tento prever e controlar, embora não saiba mais as cores, nem as formas, nem movimentos e nem a natureza disto.

Eu pude ouvir as vinte vozes daquele lugar, como se eles tivessem resolvido existir juntas, para bloquear meu objetivo. Então estava eu num Café. Havia vindo visitar uma tia na capital e a família resolvera se reunir naquela mesa. Meu pai, minha mãe, minha irmã estavam todos lá, conversando e comendo. As outras pessoas nas mesas, cada uma em suas conversas particulares, os funcionários olhando para o relógio, todos lá. Eu estava naquele lugar há mais de meia hora, mas pareceu que ele havia acabado de ser montado por alguma espécie de mágica. Como se as paredes tivesse chegado há pouco tempo no chão, o cenário tivesse sido montado como um quebra-cabeça e minha família tivesse chegado por teletransporte. Quase pude ver através deles.

Eu também tinha a minha comida – mais precisamente, um café. Um café mocha entupido de baunilha – mais pela decoração e profilaxia do tédio do que pela expectativa da degustação. Porém, estava lá há tanto tempo, intacto, que eu sentia que o café pertencia mais às bactérias do ar do que a mim.

Eles conversavam sobre política. Meu pai e minha mãe eram politizados até acima da média, quando comparados aos pais dos meus colegas. Minha irmã, embora não procurasse ter uma real informação, adorava expressar suas opiniões quase sempre inoportunas, vomitando um senso comum que raramente era repreendido. Eu gostaria de dar minha opinião, também, mas eles não iriam gostar. Minha mãe vivia dizendo que não era uma mulher moderna, e talvez eu fosse mais moderna do que ela desejaria.

“Política é dinheiro” meu pai dizia, talvez tão altivo quanto Descartes quando proclamou “penso logo existo”.

Tempo é dinheiro, ele dissera também, em outra época.

Lutei contra as bactérias e tomei o café todo de uma vez, tentando não me concentrar em como ele descia lento e pegajoso pela minha garganta. Notei, com certa impaciência, a falta de uma lixeira por perto. Não queria ficar olhando para aquele copo seco e lembrando do café, também. Levantei-me sem dizer nada e me dirigi à lixeira perto da saída. Me aproximei o bastante para que a fraqueza da minha mão não me impedisse de acertar o alvo.

Eu acertei, não só o alvo, mas outra pessoa também. Nós chegamos à almejada lixeira quase ao mesmo tempo, vindos de diferentes direções, e mesmo assim, eu não a havia visto antes que meu copo se chocasse contra sua mão e pequenas gotas de café se derramassem. Ela, que não devia ter muito mais nem menos que a minha idade, me olhou diretamente e sorriu simples, como que em sinal de perdão.

Ela apenas me olhou dois segundos, e logo voltou a atenção para os amigos. Mas pra mim, pareceram longos minutos. Assim como o cenário de antes me pareceu recém-montado e eu me senti tonta com a rapidez em que me vi na conversa, agora eu sentia como se tivesse tempo suficiente para me mover por todo o Café e ela ainda estaria olhando para mim. Eu pude ver seu cabelo bagunçado de um jeito esquisito para ser atraente, vi sua face a contradizendo por ser tão branca e suave. Vi a agressividade de seus olhos verdes e seu nariz reto se desmancharem nos lábios gentis e no maxilar fino. Suas roupas também eram uma contradição: negavam seu porte elegante e disfarçavam o orgulho. Ela era deveras muito bonita, e não precisava de nada para ostentar isso. Suas roupas eram as mais simples e apagadas possíveis, não usava nenhum acessório. Eu também usava, e sempre, roupas simples e quase nenhum acessório, mas por motivos bem diferentes. Eu não tinha a melhor avaliação sobre minha aparência e não queria me maquiar, escolher boas roupas, sapatos e penteados só para depois lembrar que nem assim eu era bonita como minha amiga Rachel, por exemplo. Meu súbito interesse era agora insuportável. Era insuportável saber que eu não a encontraria mais e sequer saberia se era digna da minha atenção. Era desgastante perceber que, na verdade, eu não me importava tanto assim.

Longe, longe e sim, nunca mais perto. O cenário era entre o desmontável e o sólido: estava derretendo. De novo, eu não pude assistir, nem prever, nem controlar. Não pude descobrir o que era.

Tempos depois, ouviria meu pai dizer:

“Amor é dinheiro!”

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On my sleeve

Um dia…?

Um mês?

Dois? Três?

Sem importância. Fazia tempo. Fazia muito tempo que algo assim não acontecia comigo.
Eu era uma garota do Ensino Médio. Normal. Acho que as pessoas gostavam de mim, mas não era como se eu fosse exatamente popular. Eu estava feliz do jeito que estava. Eu tinha uma mãe normal, nem muito ausente, nem muito atenciosa. Meu pai era tão protetor que às vezes me irritava. Mas eu estava satisfeita com isso.

“Eu não queria ir embora” dizia Raquel, com sua voz manhosa e seu bico formado.

Ela era minha melhor amiga. Estávamos no intervalo, e falávamos sobre a partida dela. Ela iria para uma cidade maior, um colégio maior, um lugar melhor. Eu estava feliz por ela. Mas, logicamente, também estava triste. Se a Raquel for embora, pensava eu, tudo bem. Eu ainda tenho as outras meninas. E claro, eu tenho a Bianca. Ou branquela, como eu costumava chamar e ela costumava odiar. Eu não sei definir o que eu sentia por ela, já havia deixado essa compreensão de lado há muito tempo. Mas não acredito que fosse algo de cunho amoroso. Era mais como uma confiança e segurança excessiva, como se eu sempre pudesse correr para ela, no fim das contas. Era egoísta. Acho que não é justo que uma pessoa dependa tanto assim da outra. Digo, não era justo com ela. Eu deveria antes perguntá-la se podia contar tanto assim com a minha branquela, se podia guardá-la debaixo da minha manga como última carta. Tanto faz. Eu sempre guardei. Me pergunto se ela soube disso alguma vez.

Olhei para o copo de milkshake em minha mão. Não era meu. O vento frio do inverno tenebroso batia contra ele, mas o líquido continuava lá, mexendo-se, sem parar, sem congelar. Entretanto, eu sabia, uma hora ele iria congelar. E a melancolia que me tomava naquele dia cinzento e nublado fazia com que eu me perguntasse se um dia, eu também não congelaria.

Um, dois, três…

…Cinco meses?

Mais?

Sim, provavelmente mais. Eu sequer me lembrava qual havia sido a última vez em que me encontrara apaixonada. Ou com um sentimento especial de qualquer outra natureza, qualquer um que enchesse meu peito e colocasse um sorriso automático e sincero em meu rosto. Quem sabe, um que fizesse minhas mãos tremerem, minhas bochechas tão propícias corarem, meus lábios chacoalharem enquanto minha voz esganiçada tentava fazer com que alguém me ouvisse.

Quanto tempo?

Muito. Talvez, eu estivesse congelando sem saber. Sem saber como ou quando esse processo começou. Sem vontade de pará-lo.

Talvez eu estivesse sendo envolta pelo gelo, assim como ela parecia estar.

“Já volto” disse às meninas, levantando-me. Raquel olhou-me de esguelha, curiosa. Não vi quando deu uma desculpa, mas vi quando me seguiu. Não havia problema.

Logo me aproximei da mesa, na parte coberta do pátio. Os meninos – e Bianca – sempre sentavam lá. Encontrei meu alvo, e bufei, cansada. Quando Rafael iria deixar de ser tão folgado?

“Está aqui o milkshake que você me pediu para comprar e nem teve a decência de ir buscar” brinquei.

Ele me lançou aquele sorriso debochado, e os outros caçoaram dele. Pelo menos, a maioria o fez.

“Ei! Você derramou quase metade!” ele protestou, examinando sua compra.

Olhei em seu interior também. Era verdade. Disfarcei um sorriso amarelo.

“Desculpa” pedi. Rafael me lançou um olhar diferente e fez uma linha fina e torta com os lábios, deixando-me saber que aquilo era besteira, nada demais. Nada com o qual eu devesse me preocupar. Sorri também, agradecendo-o.

Senti quando Raquel passou o braço pelo meu pescoço, trazendo-me para mais perto dela. Ou, pelo menos, para mais perto dos seios dela. Minha amiga era enormemente mais alta que eu, de modo que, quando ela fazia essa ação tão comum, minha cara sempre era esmagada contra um de seus fartos seios.

Meu bom senso entrou em pânico. Sempre que ela fazia isso, era sinal de que, a seguir, viria uma brincadeira altamente imprópria envolvendo minha pessoa, e eu realmente não estava tão afim de passar vergonha na frente de todos eles. Mais uma.

“Aposto que se fosse pra branquela, você não tinha derramado nem uma gota, não é, Elise?”

Ela piscava para mim, aquele sorriso sacana. Quis sumir. Não era a primeira vez que faziam esse tipo de brincadeira comigo e com ela, mas era a primeira vez que faziam de forma tão explícita, na frente de nós duas. Quis poder apenas ficar encarando Raquel pelo resto do tempo, para disfarçar covardemente minha vergonha, mas meu pescoço teimoso me conduziu a observar as reações dos garotos. Não, deles, não. Dela. Bianca fechou os olhos com força, para logo depois fuzilar a ruiva ao meu lado com aquelas grandes íris de um turquesa único. Lindos. Aqueles olhos eram assustadores, enigmáticos, passavam a sensação de perigo. Aqueles olhos te faziam caminhar para o desespero frio impossível de ser evitado, e você daria cada passo como se estivesse dançando, como se a felicidade te queimasse, apenas por seu corpo ser pequeno demais para abrigá-la. Aqueles olhos me faziam sentir como se eu estivesse tão feliz quanto possível, faziam dos meus sentimentos, instintos. Os olhos dela eram apaixonantes, e eu me negava a contar as frustrantes vezes em que me senti apenas instantaneamente apaixonada por eles.

Só duraria um segundo. Talvez dois, cinco, dez.

E depois, iria embora.

Ela resmungou alguma coisa para Raquel, mas não a repreendeu por chamá-la de branquela, como sempre fazia. Olhou para seu relógio, e pareceu satisfeita. Sorriu calidamente para mim, antes de se retirar da mesa. Não havia dado nem dois passos, e aquele som irritante nos avisou que a próxima aula começaria.

Eu me sentava na terceira cadeira da última fileira do canto, encostada à parede sem janelas. Ela, por mais irônico e estranho que eu achasse, sentava-se oposto a mim. Lá naquela última fileira, na parede agraciada pela grande janela. Quer dizer, naquela época do ano, os alunos dali não se sentiam tão agraciados assim. O vento congelante que teimava em balançar as cortinas era incômodo demais. Menos para ela. Bianca continuava lá, aparentemente amando o lugar.

Não me sentia bem. Era uma boa aluna, mas o professor que me desculpasse, eu não daria ouvidos a ele. Só naquele dia. Somente.

“Ela estava olhando para cá” Nina, que sentava logo atrás de mim, avisou-me, e eu demorei para seguir e encontrar aquilo no qual seus invejáveis olhos azuis focavam. Os cabelos loiros dela agora estavam no meio da sala, falando algo com certeza importante com Karine, antes que o professor chegasse. “Aposto que vem até você” ela continuou a falar.

“Por quê?” perguntei baixinho, mas sem forçar a voz. Eu já falava naturalmente baixo. Mais do que eu queria, até.

“Estão pensando em sair hoje. Sabe, nós” ela ajeitou o óculos, envergonhada, limpando a garganta. “E-embora eu não saiba se vou. Enfim. Tenho certeza que ela vem te chamar pra ir com ela”.

Abanei a mão, estranhamente nervosa.

– Que ideia.

Até parece. Completei, desta vez, apenas em minha cabeça. Virei-me para a frente. Raquel já estava em seu lugar, e eu encostei minha cabeça em suas costas. Ela não se mexeu, nem reclamou. Nunca fazia isso. Apesar de seu jeito exageradamente extrovertido, era muito carinhosa. Gostava quando eu me dispunha a um gesto como aquele, assim, por livre e espontânea vontade.

Com meus olhos camuflados – tanto pelos cabelos ruivos dela, quanto pela minha curta franja escura que caía – permiti-me espioná-la.

Ela realmente olhava pra mim. E depois, para a cadeira. Depois, retornava a mim. Como se quisesse dizer alguma coisa.

Aquilo me torturava, um pouco. Eu sabia que ela não me convidaria para uma saída à noite com os amigos, como qualquer um faria. Antes que pudesse evitar, planejei que roupa usaria para aquele acontecimento improvável. Esquematizei que meu pai me deixaria sair sem problemas, se eu dissesse que iria com ela. Bianca era uma das únicas pessoas nas quais meu pai confiava, simpatizava. Balancei a cabeça. Às vezes eu me pegava pensando desse jeito nela. Como se um dia, ela pudesse ser mais que uma amiga. Como se ela fosse me convidar para algo a dois. Por breves momentos como esse, eu desfrutava do prazeroso – e pra mim, raro –aperto no peito. Cada vez mais, ele durava mais um segundo, eu percebia. Perguntei-me se um dia, ele duraria segundos suficientes para se tornar uma sensação concreta.

Possivelmente, em todos esses meses, que talvez já tivessem se convertido em anos, eu esperasse cada acréscimo desses segundos, como se cada um fosse um pingo de areia. Talvez, eu esperasse mais um daqueles gestos singelos de Bianca que eu presenciava. Ações simples, como ela cantarolando em sua casa enquanto preparava um lanche para nós no meio da tarde. Ou a facilidade dela em manejar os lápis e deslizá-los por entre os dedos enquanto resolvia os exercícios complexos de matemática.

Talvez, ela estivesse esperando que os segundos fossem suficientes para que eu me sentisse realmente apaixonada, e assim, ela pudesse depender um pouco de mim também.

Um dia.

Dois.

Três semanas.

A cada grão de areia, eu pedia para que não demorasse tanto.

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