Sobre meu amor por você

Nietzsche, esse fracassado recalcado de quem não podemos deixar de gostar, dizia que o amor e ego são a mesma coisa com nomes diferentes, que amor é posse. Ele, de fato, dedicou certo tempo em desconstruir toda a beleza que os românticos reputaram ao amor. Realmente, amor e posse, estão, no mínimo, interligados. Por outro lado, Sartre dizia que nos atraímos justamente pela independência e liberdade que enxergamos no outro. Não, não te quero minha. Te quero sua e te quero porque você é sua e só sua. Meu desejo de posse se limita à posse da tua companhia. Que me deixe te ver, te tocar, te sentir – só na forma e no tempo que você me permitir. Tá, a sua pele é sua. Mas por favor me empresta ela qualquer dia desses pra eu pintar um quadro de Mondrian no seu corpo. Não que ele precise de tinta pra ser arte. Meu olho capta o que vê do teu corpo, envia as informações ao meu cérebro desregulado, que acrescenta várias outras informações e acaba que minha percepção de você é quase onírica, e ao mesmo tempo, às vezes parece a única coisa real nessa matrix que é o mundo; o concreto das minhas paredes, o tecido da minha cama, a madeira do meu guarda-roupas não são nem de longe tão reais quanto teu rosto. O resultado desse processo interno é cara de idiota que eu faço te observando por minutos a fio. Você é sua, só sua. Sua mente, suas ideias, suas ações, seu andar, seus trejeitos. Você é proprietária única e exclusiva de todo esse deslumbre. E – aguenta essa, Proudhon – acho que essa é a única propriedade que não é roubo. Mas deixa eu pensar junto com você, deixa eu abraçar você, deixa eu dormir com você, deixa eu ouvir você, deixa eu andar com você. Por um tempo. Até nosso encanto se acabar e a gente ver que a gente chora e fede como todo mundo.

Meu pensamento também é só meu, você não tem acesso a ele. Mas quando eu digo que te amo, não é só uma frase solta, dita pra impressionar –  eu não amaria alguém que se impressionasse com tão pouco. É só a verbalização que não faz jus – porque nunca faz – ao sentimento que é responsável pelas sensações vibrantes correndo pelo meu corpo quando te vejo, por você ser um entusiasmo pra acordar e viver a rotina chata, porque, pelo menos, eu vou passar umas horas com você. E esse sentimento, se verdadeiro, será observado nas ações. No meu cuidado, no meu riso e olhar idiotas de quem inegavelmente te ama, nas vezes que você vai ser minha inspiração pra tanta, tanta coisa! Espero que você fique um pouco pra observar isso. Espero que eu possa mostrar isso fielmente e precisamente. Infelizmente, eu me aproximo mais desses românticos idiotas que dos céticos como Nietzsche. Espero cada dia poder te provar um pouco que ele não estava tão certo assim em suas análises, e que o amor, apesar de ser chato, estúpido e inconveniente, provoca sensações boas e tão reconfortantes em nós humanos – que também somos chatos, estúpidos e inconvenientes – que é até bom de vez em quando na vida. Que essa galera tipo Neruda, Lord Byron, Álvares de Azevedo não são completos parvos alienados pelas sensações. Eles sabem que o amor é um impulso no meio da morbidez, mas também sabem que, uma vez que esse impulso se estingue, a morbidez se agiganta e se fortalece. A certeza da dor, do luto, do sofrimento e do cinismo futuros é o preço que pagamos de bom grado por um prazer imediato.

O inferno são alguns. Já você, é alguém que torna meu inferno suportável. Talvez nossa ânsia por amor venha disso. Vai saber.

“ME FALTA tempo para celebrar teus cabelos.

Um por um devo contá-los e elogiá-los:

outros amantes querem viver com certos olhos,

eu só quero ser tua cabeleireira”.

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Às vezes eu fecho os olhos e vejo as mesmas formas e cores distorcidas que eu via quando criança. Parece que tudo volta. A mesma angústia, a mesma solidão, a mesma rejeição. Cresci uma adulta frustrada por não ser boa em nada. Cresci uma adulta desagradável, sem amigos. Tento me convencer de que o inferno são os outros. Em todo lugar que vou, sei que não sou bem-vinda.

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Das vezes que você me deixou ir embora

Stella era o por que não? no meu ceticismo. Eu havia construído minhas opiniões em estudos científicos e fatos materiais, ela insistia em jogar tudo por terra em nome do desconhecido. Eu odeio escrever sobre Stella, e odeio mais ainda gostar de Stella. Gostar é o eufemismo que eu negociei com minha Razão. Mas sabemos que sou mesmo é apaixonada por ela. Eu nunca vi graça nessa coisa de opostos se atraírem ou se completarem, eu era uma contradição física, eu era uma partícula negativa vagando, no fundo meio em busca de outra carga negativa. A carga de Stella não era da física, era do espírito. E isso é pior que uma simples partícula com carga positiva.

Eu abandonei todas as minhas regras para ficar com ela. O hedonismo sequestrou minha coerência lógica. Havíamos simplesmente abandonado tudo e caído na estrada; era hora de se desapegar do confortável, deixá-lo morrer pra que o novo viesse, ela disse.

Às vezes eu olhava pra ela e a odiava. A odiava por me fazer tão inconsequente, ao me levar de volta à adolescência que eu tanto repudiava. Às vezes eu fugia de casa. Passava dias sem dar satisfação. Quando eu voltava, ela só me encarava com uma sobrancelha arqueada, com aquela cara de quem podia – e iria, saber o que eu pensava através do meu olhar. Porra nenhuma, eu bradava na minha cabeça, com raiva, e marchava para o nosso quarto. Nessas noites eu sempre deitava na cama convencida a passar um tempo ignorando-a, e em meia hora, cada célula do meu corpo estava tremendo sistematicamente como uma música por causa dos toques dela. Parecia que Stella sabia exatamente onde me tocar, já que ela me conhecia desde que éramos caçadoras de Ártemis. Parecia que Stella sabia exatamente como olhar, o que dizer, no tom certo, pra me deixar deslumbrada por ela. E ah… A voz dela…

Quando ela se levantava e me deixava sozinha, eu voltava a odiá-la. Me sentia presa num sentimento que eu não podia controlar, vigiar, punir. Stella era um ponto fora da rota. Eu não tinha nada a ver com ela. Eu não queria ouvir a maioria das coisas que ela dizia, ela não queria ouvir muito do que eu dizia. E mesmo assim, eu ficava ali, completamente extasiada por estar nos braços dela. Ela dizia que nossas almas se conheciam. Bem, eu preferia pensar que nossos átomos se conheciam e se atraiam desde o surgimento do Universo. Dava no mesmo. Stella era um golpe que me levou ao chão, e eu não levantava só de otária.

Um dia, olhando pra mim, ela viu mais do que eu tinha permitido que meu rosto transparecesse. Silenciosamente, perguntou qual era o problema.

“Eu não posso ficar com você. Eu não posso pedir que você lute por mim pra sempre. Eu estou sempre indo embora, e tudo que eu queria era que você não me deixasse ir”, eu disse, com os olhos ardendo, metade frustração, metade tristeza.

“Eu vou estar aqui quando você voltar”, ela disse, somente. E eu sabia que era verdade, mas não era o bastante.

Eu me levantei, botei uma calça folgada e uma camiseta qualquer, saí. Dessa vez, não sabia para onde iria. Há muito tempo eu não estava viva o suficiente, e eu recusava o fato de que era Stella que me deixava menos morta. Euteamoeuteamoeuteamo, eu repetia, enquanto fugia de mais coisas do que parecia. Naquela noite, não sabia se voltaria pra mim. Muito menos pra Stella. Pelo menos não nessa vida.

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Cinzas

Inês tinha um plano.

“Eu vou trabalhar próximo ano, daí, juntando com o dinheiro que meu pai vai me dar, posso finalmente estudar na Itália. Você não sabe como as coisas lá são mais fáceis pra gente como eu. Eu vou sentir sua falta”. Nisso, ela encosta sua cabeça em meu ombro e me dá um abraço. Eu me encolho, e tento me controlar para não me contorcer. De uns tempos para cá, essa era a minha resposta a qualquer contato físico. Mesmo que fosse da minha melhor amiga. Mesmo que fosse uma das pessoas que eu mais gostava no mundo. E isso não me surpreendia mais. Era só uma constatação, sem nenhum juízo de valor.

“E você? Qual o seu plano?”

Meu plano? Eu não tinha um. Quando você é como eu sou, não existem mais planos. Não existe mais futuro, não existem mais cenas da sua futura casa, seu futuro marido, filhos ou trabalho. Nada vem à sua cabeça. É como aquele jogo infantil de amarelinha, só que o último quadrado representa uma data específica nos próximos quatro meses.

Ah, é. Eu tinha um plano. Um único plano, que impossibilitava a existência de qualquer outro plano. Mas acho que é melhor Inês não ficar sabendo dele.

Ela já estava suficientemente acostumada comigo para não estranhar ter meu silêncio como resposta à sua pergunta. No carro em que estávamos, a temperatura era razoável, mas lá fora, fazia um frio cortante. A neve se acumulava na beira das calçadas e as ruas estavam quase totalmente vazias. No dia anterior, eu havia recebido a carta de aprovação para uma boa Universidade, e dormira na casa de Inês. A carta que faria qualquer um pular de alegria não causou nenhuma emoção em mim. Eu sorri só para não parecer estranha. Pra não deixar tão óbvio que havia algo de errado comigo. A carta, em nenhum momento, ameaçou meu único plano inabalável.

“No que você está pensando?” a voz de Inês surge outra vez, colorindo meus pensamentos.

“Nada. É que eu gosto da cidade quando neva.”

Quando você é como eu, seu maior passatempo é observar os prédios da cidade. Quanto mais alto, mais deslumbrante e interessante. Eu não era nenhuma amante da arquitetura. Eu olhava cada prédio imaginando como seria pular de lá. Como eu faria pra chegar no último andar. Quais deles eram hotéis, pois é muito mais fácil se for em um hotel. Você só precisa alugar um quarto por um dia num andar elevado e…

Eu quase ria dos meus pensamentos fúnebres. Eles não me incomodavam mais ou me deixavam melancólica. Eram para mim tão banais quanto poderiam ser e eu não entendia por que a maioria das pessoas se chocava com o nome “suicídio” e tinham uma obsessão por evitar dizê-lo. Será que é porque todo mundo tem um pouco de vontade ou porque sabem que têm um pouco de culpa em cada suicídio?

Outro dos meus passatempos era imaginar como as pessoas ficariam daqui a quatro meses, quando eu tivesse concluído meu plano. Será que Inês ia me culpar? Se culpar? Será que isso a deixaria abalada o suficiente para atrapalhar seu plano?

Acho que eu sou uma pessoa cruel, porque também não me importo sobre o quanto meu plano vai afetar negativamente as pessoas à minha volta. Pelo menos não o suficiente pra me fazer desistir de pular do vigésimo primeiro andar.

“Chegamos!” Inês cantarola animada, pulando do carro logo depois de pagar o taxista. E eu não entendi toda aquela energia dela. Era só a minha casa. Nós havíamos chegado à minha casa, a mesma casa que ela já estava enjoada de ver.

Meu pai e minha mãe me esperavam do lado de fora, sorrindo. Parecia que eu estava voltando de uma longa viagem, e não que tinha dormido na casa de uma amiga.

Eles me abraçaram, me parabenizaram pela centésima vez e expressaram seu orgulho por mim. E eu fiquei sem saber qual deveria ser minha reação.

Assim que eles abriram a porta, pude ver a festa. E entendi por que Inês estava tão animada. Essa foi a primeira festa surpresa que meus pais organizavam que realmente me surpreendeu. E pensando bem, não foi porque o momento era inesperado ou porque ninguém havia dado nenhuma pista. É que eu simplesmente não pensava mais nas coisas. Eu não tentava mais entender os motivos das pessoas ou ligar uma ação a outra. A minha vida se passava na minha frente como pedaços cortados, desconexos e sem sentido. E eu não sentia vontade de fazer alguma coisa para juntá-los.

Eu precisei de um tempo pra me acostumar com a nova cena à minha frente e lembrar que ela estava realmente acontecendo e que eu precisava fazer alguma coisa, que as pessoas esperavam que eu esboçasse alguma expressão. Nicholas é sempre muito rápido para mim e nunca me deixa terminar de pensar – pulou em mim e me abraçou antes de tudo. Havia gente demais ali. Mais gente que o necessário ou aceitável. Sem dúvidas, coisas da minha mãe. Havia gente ali que sinceramente não dava a mínima se eu havia sido aprovada numa faculdade ou atropelada por um trem. Deviam estar ali pela comida ou porque simplesmente não quiseram desagradar minha mãe.

Eu subi para o meu quarto sem cumprimentar metade das pessoas que deveria. A mochila com roupas e CDs que eu levara ainda estava pesando nas minhas costas e minha jaqueta e botas estavam sujas de neve.

Do corredor, eu ouvi música vindo do meu quarto. E eu obviamente não havia deixado nenhuma música tocando. Se não tivesse visto Nicholas lá embaixo, poderia jurar que era ele e sua irritante mania de revirar o meu quarto.

Mas quem estava deitada na minha cama vendo meu DVD MTV Unplugged Nirvana era Sara.

Eu mal falava com Sara. Meus pais mal a conheciam. Nós não tínhamos amigos em comum – não mais. Eu realmente não sabia como ela poderia estar ali.

Sim, eu estudei três anos com ela antes do Ensino Médio, mas nós éramos duas idiotas na época – de maneiras muito diferentes – e não nos dávamos bem. Não que brigássemos. Só não éramos interessantes uma para o outra e mantínhamos uma saudável distância.

Estranhamente, nos aproximamos mais nos últimos anos, quando quase não nos víamos. Sempre por mensagens. Nós mudamos muito e muito rápido e ao mesmo tempo, e, de alguma forma, nos tornamos tão parecidos que era até bizarro. Eu tinha um pouco de medo de Sara por isso. Tinha medo de ver o que não queria e saber que eu era daquele jeito também. E tinha medo que ela me descobrisse, porque eu amava me esconder. E tinha medo porque sabia que eu podia sentir algo de verdade por ela, diferente dos sentimentos superficiais que eu tinha a respeito de quase todo mundo.

Eu não precisava de sentimentos reais, mesmo. Eu já era confusa o suficiente. E eu tinha um prazo.

Era por isso que, nas poucas vezes que nos falávamos, eu sempre me continha. Eu nunca saia dos eixos, eu tentava parecer uma pessoa saudável e sóbria.

E embora ela se comportasse assim também, eu sabia que Sara não estava nada saudável ou sóbria.

Eu me sentei na cama, ao seu lado.

“Acho que esse é o único clássico que eu nunca canso de ver” ela fala sem olhar pra mim, apontando para a televisão com o controle remoto.

“O que está fazendo?”

“Sua mãe me chamou” deu de ombros. “Provavelmente era meu papel ficar lá embaixo, mas estava muito cheio de gente. Seu quarto é o melhor lugar da casa” ela me sorriu, mais gentil do que costumava ser. E o sorriso de Sara era lindo, ainda mais por ser tão raro.

“Minha mãe acha que esse é o evento do ano” eu reclamei, tirando minha jaqueta imunda e jogando num canto qualquer. Deitei na minha cama espaçosa, com os braços debaixo da cabeça. “Ela sabe que eu odeio atenção.”

Sara deu de ombros. Diferente de mim, ela sabia aproveitar a atenção que recebia. Em seu último aniversário, por exemplo, quando a família dela inteira veio para a cidade, até os primos do interior, ele fez o favor de informar a todos que eles eram nojentos.

“E você? Quais são seus planos?”

“Eu fui aprovada pela Universidade que queria, mas vou ter que mudar de estado” ela disse, sem fazer muito caso.

“Isso é ruim?”

“Sei lá. Ultimamente venho tendo a sensação de que nada nem lugar nenhum é bom suficiente para mim” ela piscou um olho, mas eu sabia que Sara estava falando sério, mesmo assim.

“Isso que dá ter um ego enorme.”

“Eu concordo” ela sorriu torto, repetindo Jesus Doesn’t Want Me For a Sunbeam. “Eu tenho vários planos, Silvya, mas nenhum me satisfaz. Ficar aqui também não me satisfaz.“

Eu fiquei assistindo ao vídeo, sem ter o que dizer. Olhei para o cabelo imundo de Kurt Cobain e lembrei da vez em que meu pai me perguntou se eu me inspirava nele para não tomar banho.

“Você não me parece muito feliz pra alguém que entrou numa Universidade que todo mundo se mata pra entrar.”

Eu suspirei. E dei de ombros. Levantei-me e me pus de frente à televisão.

“Eu só preciso de uns cigarros e vou ficar feliz pra caralho.”

“Você quer comprar cigarros agora?”

“Você tem medo de neve?”

Eu não vi meus pais quando descemos e achei isso muito bom. Porém, acabei não escapando das perguntar inoportunas, já que Nicholas estava encostado na parede perto da porta, vendo alguma coisa em seu celular.

“Vocês vão sair?” “Vão aonde?” “Comprar doces? Vocês vão sair pra comprar doces nessa neve?” “Ah, pelo menos vá no seu carro.”

Eu respondi que queríamos caminhar sozinhas um pouco, pra ver se Nicholas se acalmava e parava de falar alto. Mas não pude sair sem antes vê-lo piscar pra mim, cheio de insinuações sobre minha acompanhante e eu. Nicholas sempre se preocupara mais com a minha vida amorosa do que eu mesma – não era uma competição muito acirrada.

Havia um posto onde eu poderia comprar meus cigarros bem perto de casa. Mas eu guiei Sara para um que nos fez andar bastante porque queria aproveitar uma vista em particular. Nós andamos o caminho todo em silêncio, e pra falar a verdade, acho que pensávamos em tanta coisa que mal lembrávamos da existência da outra.

Sentamos em um banco do lado de fora do posto e acendemos os cigarros. Eu estava de frente a um dos prédios mais bonitos da cidade, cheio de vidros e detalhes pretos e ângulos inusitados em todos os cinquenta andares. Era um hotel. Havia um pequeno jardim no térreo. Era lindo.

“Está planejando pular de lá ou o que?” Sara perguntou com o humor ácido que sempre usava para mascarar um ponto sério ou suas verdades.

“Eu poderia roubar, também.”

“Nesse caso, você teria que chegar mais perto pra observar.”

Eu expulsei a fumaça com mais força do que era necessário. Às vezes, a perspicácia de Sara me irritava.

“Você acha que sabe de coisas que não sabe.”

“Eu sei que, ultimamente, sempre que você fala comigo, você está se despedindo.”

“Você é que está se despedindo. Você vai mudar de estado, lembra?”

Sara me olhou sem paciência e suspirou, balançando a cabeça.

“Eu não sou como os idiotas que convivem com você. Eu sei qual é o pensamento número um na sua cabeça agora mesmo.”

“E por que está falando disso? Você sabe que não vai me impedir.”

“Não. Eu estou falando porque você não está pronta.”

E eu ri. Eu ri porque, céus, eu vinha me preparando para isso a vida toda.

“Você diz que quer morrer, mas se inscreveu no teatro pra começar próximo ano. E no curso de alemão. E me disse que ainda vai aprender italiano, francês e japonês. E você ainda vai ao dentista. E você ainda compra coisas e sente vontade de comprar mais. Pra que, se você não vai usar? Por que você fica marcando uma data daqui a quatro meses, sem nada de especial, quando o prédio está bem na sua frente e você podia pular agora?”

A voz de Sara parecia desafinada e horrível, parecia cruzar meu cérebro e fazer picado dele. Eu quis correr dali, mas meu corpo não se mexeu. Eu chorei com tanta raiva que achei que quebraria meus dentes, e odiava incontrolavelmente Sara.

“Você não quer morrer, você só quer fugir” sua voz era dura e introspectiva. E sem piscadas de olho, sorrisos ou fingimentos. “E eu preciso fugir também.”

“Olha” ela continuou, recuperando sua objetividade usual. “Às 17h30min passa um ônibus aqui todos os dias que leva à cidade vizinha. Eu estou pensando em pegá-lo qualquer dia desses. Ir viajando até encontrar um lugar que me deixe satisfeita.”

“E você quer que eu vá junto?” eu debochei, com uma sobrancelha levantada.

“O que tem? Você já ia deixar tudo pra trás mesmo.”

Quando Sara olhou pra mim, seus olhos eram a coisa mais quente que eu havia presenciado naquele inverno. Eu tive vergonha do quão opacos os meus deveriam parecer naquele mesmo momento.

“Eu não acho que fugir vá adiantar, sabe. Eu não estou cansada dessas pessoas, eu estou cansada de todas as pessoas. Eu estou cansada do mundo inteiro, não só dessa cidade. Eu estou cansada de estar presa no meu próprio corpo e nas minhas ideias.”

Isso era o que eu queria ter dito a Sara, mas eu não disse. Eu fiquei calada. Eu não queria parecer frágil.

“Sabe, sempre tem um prédio.” Ela disse, com bastante tédio.

“Como?”

“Em qualquer cidade tem um prédio e você pode pular dele a hora que quiser, você não precisa ficar aqui para isso. Você disse que estava cansada das pessoas, mas está aqui conversando comigo numa boa.”

“Você é diferente.” Eu praticamente reclamei, girando os olhos.

Sara afogou o cigarro na neve e se ajoelhou na minha frente. Me encarou como se eu fosse uma criança e ela estivesse prestes a fazer uma promessa que nunca cumpriria.

“Posso mudar o que você vê. Estou cansada de fazer planos. Vem comigo, agora?”

O ônibus parou atrás dela, a poucos metros de nós. Não ficaria ali por muito tempo. Sara se levantou, deu uma última olhada para mim e andou até a parada. Eu vi as cinzas serem sufocadas pela neve. Sara precisava sair da pequenez e da mediocridade. Ela era grande demais para tudo aquilo. Sinceramente, eu não sabia de que tamanho eu era. Mas eu tinha dinheiro suficiente para a minha passagem. O mundo era ruim e feio, mas se eu pudesse me isolar numa bolha com Sara e ficar lá pra sempre, as coisas não podiam ser tão ruins assim. Eu podia viver com isso.

E se eu fosse pequena demais a ponto de ser sufocada, bem… Tem sempre um prédio.

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I don’t know how to be in a releationship. I love Venus and I think about breaking up with her almost everyday. I’m scared of how much power she has over me. She didn’t want to see me today and it broke me, I’m in pieces. How pathetitic. I don’t deserve her. I don’t even deserve to be alive. I don’t know why I was born and I don’t know why I didn’t die when I tried. Universe is a fuckbag.

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Solitaire.

“Mãe, mãe! Eu canto bem? Taís quer entrar no coral da escola e eu-”

“Não sei”.

Sua mãe resmungou, franzindo-lhe o cenho e passando apressada para seu escritório. Naquele momento, Emília soube que sua voz jamais havia sido ouvida.

Emília não entrou no coral. Entrou no teatro. O palco era o único lugar onde a luz a alcançava.

Tem ideia do quão humilhante é ser o maior alvo do seu próprio desprezo?

Emília aprendeu a performar sentimentos porque ela não tinha nenhum. Há dois meses, Renata sentava sozinha no almoço. Alguns calouros haviam descoberto que ela participava de um grupo de estudos ufológicos. “Renata acha que é um E.T.!” e riam. Emília não achava que era um alienígena. Ela não era nada vivo.

Emília era às vezes Emília, e às vezes, Millie. Emília vivia num mundo pouco convidativo e denso em demasia, raramente falava. Emília era cínica e nunca ligava de volta no dia seguinte — era fora de cogitação dar seu número certo. Millie usava vestidos florais, gostava de cozinhar, e no mínimo, reconhecia a importância de sentimentos para a espécie humana. Taís preferia Millie. Lucas tentava a todo tempo desafogar Millie da imensidão de Emília. Renata tinha medo de Emília e adorava o cabelo de Millie. De certo modo, era Millie quem salvava Emíla do completo isolamento.

Emília — ou Millie, ou as duas, ninguém jamais sabia — tinha várias paixões e ciúmes a cada mês. Ela se desesperava apenas frivolamente, ciente da superficialidade de tudo, da limitação de suas capacidades sensitivas. Por vezes, ela acalentava um fio de tristeza genuína, que logo em seguida se perdia na liquidez das sensações e na pressa da hipocrisia.

Emília nunca conseguia tornar suas paixões palpáveis, por isso ela sempre ia embora na metade da música.

Marina era mais uma de suas incertezas. Emília tinha surtos de ciúme constantes causados pelo excesso de beleza e caráter galanteador da moça. Bastava Lucas destinar um de seus sorrisos radiantes à pálida Marina que Emília passava dois dias sem conseguir falar direito com o melhor amigo.

E Marina preferia Emília a Millie.

“O que tem essa Marina, hein?”

Taís questionava, com sua sobrancelha curiosa levanta.

“Nada”, ela respondia inexplicavelmente mal humorada, quando as duas haviam acabado de ter uma conversa agradável.

Já era meia hora de atraso quando ela resolveu ir à cinemateca. Era a encarregada do mês de arquivar os novos filmes por gênero, ano, país e diretor. Tempo precioso que seria cobrado pela sra. Selma, tempo gasto em decidir se seu amor pela sétima arte era maior que sua determinação a evitar o motivo de suas três últimas crises existenciais.

Sentou-se ao lado de Marina. Com a mão esquerda, tentava providenciar uma válvula de escape para sua ansiedade. Com a mão direita, tentava se livrar do resto de seu coração. Não a olhou nem a cumprimentou. Marina sorriu, aquele sorriso desfigurado e inconvenientemente sapiente.

Marina se divertia com o fato de que ninguém percebia que 2/3 de suas palavras não eram forjadas com interesse, mas com sagacidade.

“Eu estava imaginando como você consegue passar quatro horas por semana sem olhar pra mim uma única vez”.

Zombaria causa falsa simpatia — imperícia soa como confusão.

“Seu cabelo não é tão diferente do da Medusa”.

“Eu Não Preciso De Nada”, 1968, França, Georges Louvain.

Eu não preciso — de nada. Nem do quente urso Ted de um braço só, nem de sorriso paterno, nem de conforto, nem de amizade, nem de abrigo contra a absurda realidade fulgurante, nem de braços firmes despidos de luxúria, nem da incerteza provavelmente dolorosa esculpida em 1, 78m de Marina, Marina, Marina.

“Quando as pessoas te olham você olha de volta, e sabe, você não deveria fazer isso, não é educado” pare de perfurar meus olhos com uma franqueza insuportável “é realmente uma mania horrenda”.

Marina encarou o resmungo, sem tomar posições, sem escolher armas — Emília já havia disparado as suas contra si mesma. Cada vez, a carranca emoldurada pelos cabelos negros de Marina ficava mais dura. Os momentos de provocação ficavam mais raros, os sarcasmos eram menos entendidos e os silêncios eram mais maçantes. A conexão se esfarelava sem cor, com aspecto amorfo.

Acordes de autoria de Jack White irromperam indevidamente, quase fazendo ritmo com a consequente retaliação da sra. Selma.

“Desculpe”, Marina começou a se desculpar, com uma polidez aprendida à força. “É minha namorada. O pai dela está no hospital, eu preciso ir”.

Emília tinha muita facilidade de se livrar das coisas que lhe faziam bem.

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Amor é dinheiro.

O amor clama ter a resposta para tudo.

Perto, perto e perto. Ficava mais perto. Eu sempre fora obcecada pelas imagens que se formam quando fechamos os olhos e apertamos as pálpebras com as mãos. Quando criança, eu podia ficar minutos a fio assistindo ao destino delas, tentando prevê-las e controlá-las. Eu sabia suas cores, suas formas e seus movimentos. Eu ainda assisto, tento prever e controlar, embora não saiba mais as cores, nem as formas, nem movimentos e nem a natureza disto.

Eu pude ouvir as vinte vozes daquele lugar, como se eles tivessem resolvido existir juntas, para bloquear meu objetivo. Então estava eu num Café. Havia vindo visitar uma tia na capital e a família resolvera se reunir naquela mesa. Meu pai, minha mãe, minha irmã estavam todos lá, conversando e comendo. As outras pessoas nas mesas, cada uma em suas conversas particulares, os funcionários olhando para o relógio, todos lá. Eu estava naquele lugar há mais de meia hora, mas pareceu que ele havia acabado de ser montado por alguma espécie de mágica. Como se as paredes tivesse chegado há pouco tempo no chão, o cenário tivesse sido montado como um quebra-cabeça e minha família tivesse chegado por teletransporte. Quase pude ver através deles.

Eu também tinha a minha comida – mais precisamente, um café. Um café mocha entupido de baunilha – mais pela decoração e profilaxia do tédio do que pela expectativa da degustação. Porém, estava lá há tanto tempo, intacto, que eu sentia que o café pertencia mais às bactérias do ar do que a mim.

Eles conversavam sobre política. Meu pai e minha mãe eram politizados até acima da média, quando comparados aos pais dos meus colegas. Minha irmã, embora não procurasse ter uma real informação, adorava expressar suas opiniões quase sempre inoportunas, vomitando um senso comum que raramente era repreendido. Eu gostaria de dar minha opinião, também, mas eles não iriam gostar. Minha mãe vivia dizendo que não era uma mulher moderna, e talvez eu fosse mais moderna do que ela desejaria.

“Política é dinheiro” meu pai dizia, talvez tão altivo quanto Descartes quando proclamou “penso logo existo”.

Tempo é dinheiro, ele dissera também, em outra época.

Lutei contra as bactérias e tomei o café todo de uma vez, tentando não me concentrar em como ele descia lento e pegajoso pela minha garganta. Notei, com certa impaciência, a falta de uma lixeira por perto. Não queria ficar olhando para aquele copo seco e lembrando do café, também. Levantei-me sem dizer nada e me dirigi à lixeira perto da saída. Me aproximei o bastante para que a fraqueza da minha mão não me impedisse de acertar o alvo.

Eu acertei, não só o alvo, mas outra pessoa também. Nós chegamos à almejada lixeira quase ao mesmo tempo, vindos de diferentes direções, e mesmo assim, eu não a havia visto antes que meu copo se chocasse contra sua mão e pequenas gotas de café se derramassem. Ela, que não devia ter muito mais nem menos que a minha idade, me olhou diretamente e sorriu simples, como que em sinal de perdão.

Ela apenas me olhou dois segundos, e logo voltou a atenção para os amigos. Mas pra mim, pareceram longos minutos. Assim como o cenário de antes me pareceu recém-montado e eu me senti tonta com a rapidez em que me vi na conversa, agora eu sentia como se tivesse tempo suficiente para me mover por todo o Café e ela ainda estaria olhando para mim. Eu pude ver seu cabelo bagunçado de um jeito esquisito para ser atraente, vi sua face a contradizendo por ser tão branca e suave. Vi a agressividade de seus olhos verdes e seu nariz reto se desmancharem nos lábios gentis e no maxilar fino. Suas roupas também eram uma contradição: negavam seu porte elegante e disfarçavam o orgulho. Ela era deveras muito bonita, e não precisava de nada para ostentar isso. Suas roupas eram as mais simples e apagadas possíveis, não usava nenhum acessório. Eu também usava, e sempre, roupas simples e quase nenhum acessório, mas por motivos bem diferentes. Eu não tinha a melhor avaliação sobre minha aparência e não queria me maquiar, escolher boas roupas, sapatos e penteados só para depois lembrar que nem assim eu era bonita como minha amiga Rachel, por exemplo. Meu súbito interesse era agora insuportável. Era insuportável saber que eu não a encontraria mais e sequer saberia se era digna da minha atenção. Era desgastante perceber que, na verdade, eu não me importava tanto assim.

Longe, longe e sim, nunca mais perto. O cenário era entre o desmontável e o sólido: estava derretendo. De novo, eu não pude assistir, nem prever, nem controlar. Não pude descobrir o que era.

Tempos depois, ouviria meu pai dizer:

“Amor é dinheiro!”

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