Carolina

Carolina era uma garota linda. Com sua pele branca se desfazendo feito neve, seus olhos brilhantes e convidativos. Eu cheirava toda sua pele, ávida por mais e mais. Nunca era suficiente. Carolina tinha uma tatuagem de escorpião no pescoço, ela deixava na cara que não era alguém para se brincar. E mesmo assim, todos a adoravam e a cheiravam sem medir as consequências. Meu caso com ela era longo. Eu sabia das consequências, mas porra, ela era tão linda e eu sentia do fundo do meu coração que Carolina era o amor da minha vida. Eu passava longos meses sem falar com ela, como um charme pra ela não me controlar, mas quando me dava conta, lá estava eu, nos braços dela. Claro que eu também me jogava nos braços de outras, e Carolina não se importava, porque sabia que era a dona da alma que eu sequer tinha, mas que podia inventar só pra que ela a possuísse. Além do mais, Carolina era muito amiga de Ana, e juntas, me davam vários conselhos. “Já se pesou hoje?”. “Você não precisa comer, vá beijar Carolina e a fome passa”. Carol me sussurrava “antes de sair, veja se seu nariz não está nevando”.

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Carol me fazia dançar. Carol não me provocava sentimentos indesejados, como as outras. Com ela, era tudo puro divertimento. Com ela, eu sentia que havia finalmente encontrado a frequência de mim mesma.

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Eu posso ter incontáveis namoradas, e jurar nunca mais ver Carolina. Tudo mentira. Eu pago pra ver Carolina. Eu sinto o cheiro dela de longe. Eu sei onde ela vai estar. E mais uma vez, ela me faz dançar, trair, agir por impulso, ser inconsequente, porque Carol tem pressa. E no fim, eu não consigo dormir. Viro noites com saudade dela, quando ela vai embora de repente. Tudo porque eu me acovardei e não tive culhões para pagar alto o suficiente. Com dinheiro e também com minha alma.

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Querido amigo

Querido amigo,

Quando te vejo, você está sempre tão frágil que parece que, a qualquer momento, vai se despedaçar ali, na minha frente. A vontade impulsiva que tenho é de te proteger como se protege um gerânio colocando-o numa redoma de vidro. O mundo não te recebeu bem. A feiura do mundo tenta sufocar a beleza da tua essência. E sua sinceridade é tanta, sua inocência é tão transparente, que você deixa todos os seus poros abertos pra feiura do mundo entrar. Pras pessoas te ferirem, cutucando os poros, abrindo-os, esticando-os, até conseguirem enfiar um punhal, uma espada, um canivete em cada um neles. E aí você sofre. E aí você sangra. E aí você chora. E aí você toma remédios demais. E aí você se destrói.

Ah, caro amigo, eu queria tanto que você aprendesse o que eu aprendi há uns anos.

Nós precisamos pegar as agulhas, as facas, os canivetes, os punhais, as espadas, arrancá-los a duras penas dos nossos poros, forjá-los todos juntos e construir uma armadura. Nós não somos compatíveis com esse mundo. Não com essa carne e esses ossos. Precisamos de uma carcaça, mesmo, que, no fim, ainda saibamos que somos feitos daquela carne e daquele osso.

Outras vezes eu queria criar um clone de mim só pra ser sua guarda-costas e te proteger de todos os babacas. Outras vezes eu queria fugir pra outro mundo com você e as outras pessoas que aprecio.

Mas não posso fazer nada disso.

Eu só posso estar aqui por você.

E a cada abraço, te apertar, pra ver se assim você não se despedaça.

E eu estou aqui por você.

Por favor, fica inteiro?

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Flora

Na primeira vez que eu a vi eu soube que ela se encaixava em mim. Ela, com sua maquiagem rosa desajeitada, de shorts e tênis, com seu cabelo colorido e tão, tão tímida que se contava nos dedos quantas palavras ela falou. E eu aguardava ansiosamente cada frase que ela dissesse, moldada com sua voz tão bonita que me fez gostar até das músicas que eu não gosto, desde que seja ela quem cante.

Na segunda vez que eu a vi eu quis tanto, tanto falar com ela. Mas parecia que havia uma barreira, na qual eu sempre esbarrava quando me jogava contra ela pra dizer alguma coisa. Tínhamos a mesma camiseta, que ficava mais linda nela do que jamais ficaria em mim.

Na terceira vez que eu a vi, meu ego ferido a fez superá-la. Deixa pra lá, ela jamais vai ver algo de interessante em você. Mal sabia eu que ela lembrava de mim nesse dia mais do que eu lembraria dela.

A quarta vez que eu a vi me fez querer ficar com ela tantas vezes quanto possível. Sim, a quarta, e eu odeio números pares, mas esse até que é bonito. Quando nos beijamos, um beijo que demorou horas pra acontecer, atrasado pela falta de coragem de ambas, tudo mexeu. Tudo entrou em aceleração. Não demorou muito pra só ela fazer sentido. Foi um pulo pra que ela desse gosto aos meus dias.

E eu amo tudo sobre ela agora. O sorriso dela, a pele dela, o cheiro dela – que felizmente sempre fica nas minhas coisas. O abraço dela, o toque dela, o jeito dela. Deitar com ela fazendo nada, ouvir as músicas que ela gosta, o carinho que fazemos nas nossas mãos, as noites insones conversando sobre tudo. Eu olho pra ela deslumbrada e ela me pergunta inocente “o que foi?” Nada. Só eu contemplando a grandiosidade e a forma bonita do que eu sinto por você. Eu sou fascinada por cada detalhe seu. Fica comigo. Até você aguentar. Você é o melhor ansiolítico que existe. Você colore meu dia como meus remédios coloridos tentam fazer e falham. Você faz eu querer ter uma alma, só pra ela acariciar a sua. Eu te amo. Honestamente, sinceramente, totalmente.

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Sobre meu amor por você

Nietzsche, esse fracassado recalcado de quem não podemos deixar de gostar, dizia que o amor e ego são a mesma coisa com nomes diferentes, que amor é posse. Ele, de fato, dedicou certo tempo em desconstruir toda a beleza que os românticos reputaram ao amor. Realmente, amor e posse, estão, no mínimo, interligados. Por outro lado, Sartre dizia que nos atraímos justamente pela independência e liberdade que enxergamos no outro. Não, não te quero minha. Te quero sua e te quero porque você é sua e só sua. Meu desejo de posse se limita à posse da tua companhia. Que me deixe te ver, te tocar, te sentir – só na forma e no tempo que você me permitir. Tá, a sua pele é sua. Mas por favor me empresta ela qualquer dia desses pra eu pintar um quadro de Mondrian no seu corpo. Não que ele precise de tinta pra ser arte. Meu olho capta o que vê do teu corpo, envia as informações ao meu cérebro desregulado, que acrescenta várias outras informações e acaba que minha percepção de você é quase onírica, e ao mesmo tempo, às vezes parece a única coisa real nessa matrix que é o mundo; o concreto das minhas paredes, o tecido da minha cama, a madeira do meu guarda-roupas não são nem de longe tão reais quanto teu rosto. O resultado desse processo interno é cara de idiota que eu faço te observando por minutos a fio. Você é sua, só sua. Sua mente, suas ideias, suas ações, seu andar, seus trejeitos. Você é proprietária única e exclusiva de todo esse deslumbre. E – aguenta essa, Proudhon – acho que essa é a única propriedade que não é roubo. Mas deixa eu pensar junto com você, deixa eu abraçar você, deixa eu dormir com você, deixa eu ouvir você, deixa eu andar com você. Por um tempo. Até nosso encanto se acabar e a gente ver que a gente chora e fede como todo mundo.

Meu pensamento também é só meu, você não tem acesso a ele. Mas quando eu digo que te amo, não é só uma frase solta, dita pra impressionar –  eu não amaria alguém que se impressionasse com tão pouco. É só a verbalização que não faz jus – porque nunca faz – ao sentimento que é responsável pelas sensações vibrantes correndo pelo meu corpo quando te vejo, por você ser um entusiasmo pra acordar e viver a rotina chata, porque, pelo menos, eu vou passar umas horas com você. E esse sentimento, se verdadeiro, será observado nas ações. No meu cuidado, no meu riso e olhar idiotas de quem inegavelmente te ama, nas vezes que você vai ser minha inspiração pra tanta, tanta coisa! Espero que você fique um pouco pra observar isso. Espero que eu possa mostrar isso fielmente e precisamente. Infelizmente, eu me aproximo mais desses românticos idiotas que dos céticos como Nietzsche. Espero cada dia poder te provar um pouco que ele não estava tão certo assim em suas análises, e que o amor, apesar de ser chato, estúpido e inconveniente, provoca sensações boas e tão reconfortantes em nós humanos – que também somos chatos, estúpidos e inconvenientes – que é até bom de vez em quando na vida. Que essa galera tipo Neruda, Lord Byron, Álvares de Azevedo não são completos parvos alienados pelas sensações. Eles sabem que o amor é um impulso no meio da morbidez, mas também sabem que, uma vez que esse impulso se estingue, a morbidez se agiganta e se fortalece. A certeza da dor, do luto, do sofrimento e do cinismo futuros é o preço que pagamos de bom grado por um prazer imediato.

O inferno são alguns. Já você, é alguém que torna meu inferno suportável. Talvez nossa ânsia por amor venha disso. Vai saber.

“ME FALTA tempo para celebrar teus cabelos.

Um por um devo contá-los e elogiá-los:

outros amantes querem viver com certos olhos,

eu só quero ser tua cabeleireira”.

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Às vezes eu fecho os olhos e vejo as mesmas formas e cores distorcidas que eu via quando criança. Parece que tudo volta. A mesma angústia, a mesma solidão, a mesma rejeição. Cresci uma adulta frustrada por não ser boa em nada. Cresci uma adulta desagradável, sem amigos. Tento me convencer de que o inferno são os outros. Em todo lugar que vou, sei que não sou bem-vinda.

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Das vezes que você me deixou ir embora

Stella era o por que não? no meu ceticismo. Eu havia construído minhas opiniões em estudos científicos e fatos materiais, ela insistia em jogar tudo por terra em nome do desconhecido. Eu odeio escrever sobre Stella, e odeio mais ainda gostar de Stella. Gostar é o eufemismo que eu negociei com minha Razão. Mas sabemos que sou mesmo é apaixonada por ela. Eu nunca vi graça nessa coisa de opostos se atraírem ou se completarem, eu era uma contradição física, eu era uma partícula negativa vagando, no fundo meio em busca de outra carga negativa. A carga de Stella não era da física, era do espírito. E isso é pior que uma simples partícula com carga positiva.

Eu abandonei todas as minhas regras para ficar com ela. O hedonismo sequestrou minha coerência lógica. Havíamos simplesmente abandonado tudo e caído na estrada; era hora de se desapegar do confortável, deixá-lo morrer pra que o novo viesse, ela disse.

Às vezes eu olhava pra ela e a odiava. A odiava por me fazer tão inconsequente, ao me levar de volta à adolescência que eu tanto repudiava. Às vezes eu fugia de casa. Passava dias sem dar satisfação. Quando eu voltava, ela só me encarava com uma sobrancelha arqueada, com aquela cara de quem podia – e iria, saber o que eu pensava através do meu olhar. Porra nenhuma, eu bradava na minha cabeça, com raiva, e marchava para o nosso quarto. Nessas noites eu sempre deitava na cama convencida a passar um tempo ignorando-a, e em meia hora, cada célula do meu corpo estava tremendo sistematicamente como uma música por causa dos toques dela. Parecia que Stella sabia exatamente onde me tocar, já que ela me conhecia desde que éramos caçadoras de Ártemis. Parecia que Stella sabia exatamente como olhar, o que dizer, no tom certo, pra me deixar deslumbrada por ela. E ah… A voz dela…

Quando ela se levantava e me deixava sozinha, eu voltava a odiá-la. Me sentia presa num sentimento que eu não podia controlar, vigiar, punir. Stella era um ponto fora da rota. Eu não tinha nada a ver com ela. Eu não queria ouvir a maioria das coisas que ela dizia, ela não queria ouvir muito do que eu dizia. E mesmo assim, eu ficava ali, completamente extasiada por estar nos braços dela. Ela dizia que nossas almas se conheciam. Bem, eu preferia pensar que nossos átomos se conheciam e se atraiam desde o surgimento do Universo. Dava no mesmo. Stella era um golpe que me levou ao chão, e eu não levantava só de otária.

Um dia, olhando pra mim, ela viu mais do que eu tinha permitido que meu rosto transparecesse. Silenciosamente, perguntou qual era o problema.

“Eu não posso ficar com você. Eu não posso pedir que você lute por mim pra sempre. Eu estou sempre indo embora, e tudo que eu queria era que você não me deixasse ir”, eu disse, com os olhos ardendo, metade frustração, metade tristeza.

“Eu vou estar aqui quando você voltar”, ela disse, somente. E eu sabia que era verdade, mas não era o bastante.

Eu me levantei, botei uma calça folgada e uma camiseta qualquer, saí. Dessa vez, não sabia para onde iria. Há muito tempo eu não estava viva o suficiente, e eu recusava o fato de que era Stella que me deixava menos morta. Euteamoeuteamoeuteamo, eu repetia, enquanto fugia de mais coisas do que parecia. Naquela noite, não sabia se voltaria pra mim. Muito menos pra Stella. Pelo menos não nessa vida.

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I don’t know how to be in a releationship. I love Venus and I think about breaking up with her almost everyday. I’m scared of how much power she has over me. She didn’t want to see me today and it broke me, I’m in pieces. How pathetitic. I don’t deserve her. I don’t even deserve to be alive. I don’t know why I was born and I don’t know why I didn’t die when I tried. Universe is a fuckbag.

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